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Folhas pesadas

variação de escritório

por Luís Naves, em 04.01.24

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Imprimiu as folhas com as últimas informações, agrafou, colocou o conjunto dentro de uma pasta de plástico azul. Contou as páginas, no total dez, iria ler com atenção o relatório, mas apenas quando arranjasse tempo. Colocou a pasta sobre uma pilha de papéis com uns vinte ou trinta centímetros de altura, ao lado de outras pilhas de documentos que cobriam a sua secretária. Passaram dias, não houve alterações na rotina nem notou nada de especial. A secretária continuava caótica, repleta de papéis acumulados que formavam arranha-céus um pouco mais altos, talvez, mas atribuiu a sensação a algum efeito ilusório da luz. Ideia absurda, a de que as pilhas de papel podiam ter crescido, ninguém entrava no escritório, ele era o único que tinha a chave, nem as senhoras da limpeza ali entravam; elas percorriam os outros escritórios do edifício, desapareciam logo pela manhã, mas não passavam aquela porta. A organização do seu mundo sofreu um pequeno abalo quando procurou a pasta de plástico azul onde guardara o relatório de dez páginas. Pareceu-lhe que descera estranhamente alguns centímetros e que mudara de arranha-céus, por assim dizer, o que era uma sensação ridícula. Abriu a pasta e surpreendeu-se. Lá dentro, não havia apenas dez páginas, mas o triplo. Isso significava que a memória lhe estava a pregar partidas. Também notou que havia uma outra capa plástica, esta amarela, e não se lembrava de ter alguma vez comprado pastas amarelas. Era cor que detestava. Ficou com a sensação de que alguém entrara no seu escritório, do qual só ele tinha a chave. Passou dias a tentar resolver o enigma. Escreveu num papel todo o conteúdo das pastas azuis (que entretanto, já eram duas) e das três amarelas. No dia seguinte, verificou que em todas as pastas havia novos documentos, os conteúdos estavam a aumentar pelo menos dez por cento ao dia, e no bolso do seu casaco não havia apenas uma lista, mas duas, com números diferentes, ambas escritas com a sua letra. Davam resultados sem nexo para os conteúdos das pastas. Mediu os arranha-céus e verificou que o mais alto tinha 45 centímetros, depois não mexeu mais, mas no dia seguinte já media 48 centímetros. Quando começou a tirar documentos velhos, havia sempre pilhas mais altas e encontrava relatórios que largara semanas antes no caixote de lixo do edifício. Ali estavam de novo. Houve um dia em que não conseguiu escapar do escritório. Foi encontrado morto, sufocado e esmagado, no meio de resmas com as folhas sem nada escrito nelas, todas em branco. Era como se o papel tivesse desabado sobre o seu corpo, cada página leve, mas muitas em conjunto extremamente pesadas.

imagem gerada por inteligência artificial, Night Café

publicado às 11:35



Autores

João Villalobos e Luís Naves