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Ficar bem na fotografia

por Luís Naves, em 18.08.15

A questão da posteridade tem imenso interesse para os artistas. Alguns admitem que o problema já deixou de existir, que a modernidade é demasiado efémera, mas estes são provavelmente raros, havendo outros que têm uma visão algo desmedida das suas qualidades, pelo que se imaginam temas de estátua na praça do rossio daqui a 500 anos. Mas, enfim, toda a gente sonha pelo menos em ser nome de rua, rezando que não lhe calhe em sorte algum beco manhoso e de má fama.
Para nós, mortais, o problema da posteridade coloca-se de outra forma: trata-se de tentar ficar na fotografia de alguém de cuja grandeza nunca suspeitámos, um pouco ao lado dele, à esquerda ou direita, pouco importa, mas em fila onde se consiga ver a nossa cara, de preferência a sorrir; trata-se acima de tudo de não ficar mal na fotografia, de não ser o gajo de quem toda a posteridade se rirá um dia.
O facto é que raramente os contemporâneos acertam nos artistas do seu tempo e que, no futuro, serão considerados grandes. Há preconceitos, invejas, miopia ou simples incompreensão. Há também exemplos de estupidez e essa é sempre lamentável. Recentemente, li o texto de um escritor famoso que se queixava de uma crítica ideológica da autoria de um escriba irreflectido e presunçoso, que lhe antecipou um futuro de esquecimento. O escritor, muito indignado com o poder da polícia do pensamento que o condenava de forma tão injusta, fez no seu diário a demolição do atrevido. Ora, o diário ficou na biblioteca, a recensão já ninguém se lembra dela. Em resumo, o escriba ficou com o nome associado, talvez durante séculos, a uma imbecilidade.
Se soubéssemos que escritor do nosso tempo será o mais famoso daqui a cinquenta anos (o coiso? esse ignorante que mal sabe assinar o nome? não é possível!) teríamos o cuidado de lhe emprestadar dinheiro de vez em quando, de tentar curar-lhe as várias tóxico-dependências, de o convidar para umas jantaradas (ajudando a matar-lhe a fome), de escrever uns elogios à obra (enfim, não compreendi lá muito bem, mas é óptimo), talvez até financiar a auto-publicação do talentoso autor, na esperança de que ele deixasse referências simpáticas em eventuais diários, espólios de cartas ou de e-mails, qualquer coisa do género: “o naves, lá no blogue dele, escreveu hoje uma coisa porreira sobre a minha obra e ainda me emprestou guito, que gastei em vinho”. Ou ainda melhor: “não sei porquê, mas o naves é o único que me compreende”.

publicado às 22:59


2 comentários

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De Luiz Santos-Roza a 07.09.2015 às 19:52

Quem foi o escritor que deixou esse diário?
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De Luís Naves a 07.09.2015 às 21:44

Vergílio Ferreira

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