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Fantasmas adormecidos

por Luís Naves, em 14.03.15

Na fase final do império austro-húngaro, grande parte da opinião pública da época detestava aquela construção e queria a independência das nações oprimidas. Estas opiniões eram bem intencionadas e ninguém imaginava o que aí vinha de horrores. As experiências democráticas na Europa Central dos anos 20 foram de curta duração, substituídas por governos fascistas. Na década seguinte, as ditaduras dominavam quase toda a região e tinham apoio popular. Nos anos 90, quando caíram as ditaduras comunistas, ainda estavam vivos muitos idosos que se lembravam com nostalgia do tempo dourado do império. Eles desconfiavam das mudanças, pois tinham sobrevivido à II Guerra Mundial, às limpezas étnicas e ao Holocausto, tinham testemunhado os efeitos do nacionalismo histérico, que entretanto regressava em força.

Lembro-me dos velhos nostálgicos do império sempre que leio sobre o avanço dos actuais partidos nacionalistas de direita. Há vários exemplos de retórica anti-União Europeia, mas os discursos são idênticos em todos os países: critica-se o capitalismo, o livre comércio e a decadência nacional provocada pela contaminação estrangeira. A pior situação ocorre em França, onde a Frente Nacional pode vencer a primeira volta das eleições regionais, criando uma base de votos que permitirá a Marine Le Pen disputar as presidenciais de 2017 com hipóteses de vencer ou, no mínimo, de forçar o vencedor a uma postura menos favorável à Europa. Esta retórica alimenta-se do descontentamento dos eleitores em relação a instituições supra-nacionais que muitos não entendem. Há razões para protestar, pois a Europa perdeu 6 milhões de empregos durante a crise, mas o desmantelamento progressivo de uma construção política que proporciona segurança e bem-estar pode resultar numa vaga de violência. Não é preciso ir longe, à Ucrânia, para perceber como é fácil manipular as paixões nacionalistas. Em toda a Europa se escondem fantasmas e esqueletos. Só estão adormecidos.

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publicado às 19:56




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