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Falta sinceridade

por Luís Naves, em 24.08.15

Em reportagem da televisão, uma mulher desempregada queixava-se à beira das lágrimas de já não ser obrigada a apresentar-se na junta de freguesia. Parecia um nada, mas ela procurava explicar algo mais grave: esgotara-se-lhe o período de subsídio de desemprego, mas disse aquilo com uma espécie de pudor que a impediu de dizer tudo até ao fim. Sei do que falava. Quando o funcionário me disse ‘já não precisa de se apresentar’ senti um nó na garganta. Ele não levantou os olhos, não me olhou, não sorriu, disse aquilo secamente, um pouco embaraçado, talvez com aflição. Senti que era humilhante já não ter deveres, embora aquele dever fosse já de si humilhante, mas pela primeira vez na minha vida tive a sensação de já não servir para nada, de não haver lugar para mim. Sei portanto o que aquela mulher tentou dizer, sem o conseguir. Sei que neste falso diário também falta sinceridade, porque é difícil ser sincero.

publicado às 13:40




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