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Falando um pouco de Europa (2)

por Luís Naves, em 01.04.14

O resultado das eleições municipais em França levou comentadores a concluir que a extrema-direita terá nas próximas eleições europeias um resultado capaz de ameaçar a construção do próprio projecto europeu. Julgo que a conclusão é apressada. Estamos muito longe de qualquer revolução anti-liberal ou até de uma ameaça à democracia. Algumas notas:

 

1
As sondagens indicam que os extremos poderão crescer na configuração do próximo parlamento. Os partidos reunidos no grupo da Esquerda Europeia vão certamente aumentar a sua representação. Na Grécia, o Syriza pode vencer as eleições e na República Checa os comunistas ortodoxos terão à volta de 16%. Embora o número de eurodeputados seja reduzido de 766 para 751, o grupo comunista deve passar dos actuais 35 para mais de 50 membros.

 

2
Na direita, a situação é um pouco mais complicada, pois há partidos eurocépticos (por exemplo, Verdadeiros Finlandeses) com grupo parlamentar e dezenas de deputados de extrema-direita não-filiados, cujos partidos não colaboram a nível europeu devido à sua retórica nacionalista, que facilmente entra em conflito com a de partidos semelhantes em outros países. Esta franja política vai provavelmente conseguir formar grupo parlamentar (sem o qual a actividade dos deputados é limitada), embora ninguém saiba ao certo que alianças serão possíveis. A Frente Nacional francesa e o partido de Geert Wilders, na Holanda, terão boas votações, mas para formar um grupo são precisos 25 deputados de sete países.
Os partidos da extrema-direita que moderaram o discurso são nacionalistas, anti-europeus e anti-imigração, mas não se podem aliar a congéneres mais radicais anti-semitas ou anti-ciganos. Todos eles tentarão aproveitar o voto de protesto, usando argumentos anti-capitalistas, proteccionistas e anti-liberais. Marine Le Pen não quererá associar-se à extrema-direita tóxica (os húngaros do Jobbik, os gregos da Aurora Dourada, os austríacos do FPO, além de outro pequeno partido sueco, todos capazes de eleger eurodeputados).

 

3

O voto de protesto europeu será forte em Itália, onde o movimento de Beppe Grillo está em terceiro lugar nas sondagens, colado à Forza Itália; os eurocépticos ingleses (UKIP) devem ficar em terceiro lugar no Reino Unido e a Alternativa para a Alemanha (anti-euro) pode ter uma boa votação, mas não se sabe onde vão caber as formações novas. Se se juntarem à direita eurocéptica, onde se encontra o UKIP, este grupo ficará muito reforçado.

 

4
Se os conservadores ingleses mantiverem o seu grupo não federalista com os polacos da Lei e Justiça, que devem vencer no seu país, é natural que a direita do parlamento europeu se divida em quatro grupos, em vez dos actuais três: além dos conservadores, não federalistas e eurocépticos, haverá um grupo de extrema-direita. À esquerda estarão socialistas, verdes e comunistas, ao centro os liberais. Ao todo, haverá oito grupos em vez de sete.

 

5
As sondagens indicam um potencial empate entre socialistas e conservadores. Os primeiros (S&D) ganham em Itália, Reino Unido, Portugal, Espanha, Roménia e Suécia; os conservadores deverão vencer em França, Alemanha, Finlândia, Hungria e Áustria mas terão bons resultados, muito à frente dos socialistas, também na Polónia e Grécia. O PPE, onde se agrupam estes partidos, deve perder deputados, mas poderá mesmo assim ficar à frente na corrida, embora por margem mínima.

 

6

Em resumo, o voto de protesto será forte em alguns países, mas sem alterar o equilíbrio fundamental entre os dois colossos do parlamento (PPE e S&D). O partido mais votado deve escolher o presidente da Comissão Europeia. No resto, conservadores e socialistas, que em conjunto terão mais de 400 dos 751 deputados, tenderão a fazer um bloco central ainda mais próximo do que os entendimentos tradicionais do Parlamento Europeu. Contarão ainda com o apoio regular de liberais, verdes e, em certos casos, dos anti-federalistas. Os extremos (comunistas, fascistas, populistas) serão mais audíveis, mas incapazes de alterar o essencial.

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publicado às 12:28




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