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Falando um pouco de Europa (1)

por Luís Naves, em 25.03.14

I

Estamos a dois meses das eleições europeias e já é visível que nenhum partido nacional vai debater o futuro da integração de Portugal no conjunto da UE. Nenhum partido quererá dizer aos portugueses que a Europa mudou com a aprovação do novo Tratado Orçamental, que obriga os membros da zona euro a orçamentos equilibrados e redução da dívida segundo um plano previamente estabelecido. Alguma comunicação social mais irresponsável tem associado estas obrigações à ideia de “20 anos de austeridade”, um absurdo a que nenhuma democracia poderia sobreviver. Não se explica que haverá mais cortes na despesa (eles podem ser deduzidos da leitura dos documentos do FMI ou da Comissão) e que estes terão mesmo de ser feitos, pois a alternativa é a saída da zona euro. Reestruturar a dívida? Isso é não cumprir o Tratado, portanto, é regressar ao escudo.
Os partidos nacionais estão a proceder a uma elaborada coreografia que visa esconder da opinião pública a falta de opções. A Europa dominada pela Alemanha subiu um patamar na integração, com poderes de vigilância orçamental que até aqui não existiam. O euro é um projecto político que visou ancorar a Alemanha ao resto da Europa, sendo normal que os alemães tenham imposto alguns dos seus pontos de vista: querem uma moeda forte, sem boleias a incumpridores que ameacem a estabilidade do conjunto.


II

E, no entanto, só ouvimos falar na fraqueza da Europa, nos perigos que esta enfrenta, nas guerras à porta. Muitos comentários sobre a crise ucraniana ou sobre as eleições francesas foram sempre neste sentido e pareciam anunciar o colapso iminente da União Europeia. Onde se via com clareza a atitude imperial e anacrónica da Rússia, muitos comentadores portugueses viam fascistas ucranianos que os europeus aceitavam a até incentivavam. Sobre a França, onde os socialistas estão em dificuldades, li sobretudo comentários catastrofistas relativos ao avanço da extrema-direita, embora a vitória dos gaulistas (UMP, centro-direita) seja de longe mais provável.
Existe em Portugal uma obsessão parva com a extrema-direita, que é algo que não temos. Os partidos europeus estão firmemente assentes no centro-direita e no centro-esquerda, havendo desvios populistas e radicais nas eleições europeias, onde se aproveita o protesto (no caso francês, a lista nacional). No entanto, esses desvios nunca atingem eleições legislativas. Este jogo de poder é acima de tudo uma grande ilusão, pois ninguém vai vencer com uma agenda de ruptura num país europeu. E entre nós nunca são explicadas as divisões do campo extremista: há ali radicais, ultra-nacionalistas, eurocépticos, populistas, libertários e franjas lunáticas, o que não permite pôr toda a gente no mesmo saco, como aliás não se faz com a extrema-esquerda.
Os europeus estão descontentes, mas são demasiado ricos para votarem contra a estabilidade ou a favor de loucos que levem aos conflitos do passado. Metam isto na cabeça: a Europa está a mudar e nós vamos ter de mudar com ela. Será um grande bloco de liberdade, riqueza e paz, com influência mundial, e a única alternativa que Portugal verdadeiramente tem é a de ficar no lado de fora. 

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publicado às 13:17




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