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Excesso de estilo

por Luís Naves, em 10.01.18

A literatura pode ser tudo aquilo que resta depois de ser retirado o que não adianta. Convém não confundir pintura com decoração, música com melodia de acalmar nervos. O fato serve para vestir alguém e, quando não leva em conta as dimensões do corpo, torna ridículo quem o veste. O excesso de estilo é como o fato demasiado longo que não obedece à personalidade de quem escreve. Certo jogador famoso nunca fazia um passe, corria com a bola nos pés como se ela fosse sua e ornamentava cada movimento com dribles adicionais. Nesse tempo, o excesso de estilo era muito apreciado e choviam os aplausos enquanto ele fintava um, dois, três adversários, até finalmente perder a bola. A imprensa dizia que ele era capaz de sair de uma cabina telefónica a jogar, mas funcionava ao contrário, era capaz de se enfiar inutilmente numa cabina telefónica, rodeado de adversários, e ficava lá a dar toques infinitos, até perder a bola e cair no relvado com grandes gestos de protesto a quem ninguém ligava. Um dia, as pessoas fartaram-se, achavam aquilo monótono, e dizia-se que o grande campeão nunca tivera verdadeira noção da baliza. Depois, foi esquecido, mas isso acontece a todos. Se percebemos isto no futebol, devíamos perceber na arte, mas depois lemos Proust e não é nada disto.

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publicado às 19:29




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