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Estas histórias esquecidas

por Luís Naves, em 07.05.15

Somos maus a prever o futuro e esquecemos facilmente as ansiedades do passado. Os europeus de hoje discutem a contabilidade dos programas de ajustamento, queixam-se da crise e dos impostos elevados, mas dificilmente podem dizer que enfrentam uma ameaça existencial. Nos anos 80, quando o império soviético mostrava crescentes sinais de fissuras internas, discutiu-se a possibilidade da Terceira Guerra Mundial. Os exércitos convencionais eram gigantescos e haveria no centro da Europa um choque militar de dimensões titânicas. Os arsenais atómicos somavam 60 mil ogivas e elas teriam sido lançadas, mesmo em operações de objectivos limitados. A doutrina estratégica da época, destruição mútua assegurada, tinha um acrónimo inglês, MAD, apropriado à loucura de todos estes planos militares. Se houvesse sobreviventes dos bombardeamentos, eles teriam morrido mais tarde, vítimas de alterações climáticas, da violência do colapso civilizacional ou do envenenamento radioactivo. Vários incidentes quase provocaram uma guerra geral, incluindo problemas de computadores e líderes a entrarem em paranóia. A civilização podia ter acabado em 1953, em 1962, em 1983, mas a queda no abismo foi sendo evitada à última hora pela intervenção de felizes acasos ou palpites de heróis anónimos. Quando ouço previsões pessimistas em relação às crises de hoje, lembro-me das história esquecidas em que quase morremos todos. Somos maus a prever o futuro e somos péssimos a lembrar o passado, embora não pareça existir alguma crise actual que se compare à perspectiva, bem concreta durante 40 anos, de um suicídio quase instantâneo da própria espécie humana.

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publicado às 14:52




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