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Embirrações

por Luís Naves, em 05.05.15

As discussões são quase sempre superficiais, frequentemente ao lado do alvo, com frases indignadas e pomposas sobre temas que não foram devidamente assimilados. No fundo, passamos o tempo a discutir mitologia, que é a maneira mais fácil de evitar tudo aquilo que nos possa tirar do conforto da ignorância. O fait divers ganhou dimensões de enorme transcendência, parecendo por vezes vital para o futuro da pátria. O folclore ocupa o tempo de análise e é dissecada toda a sua adiposa tolice. O que vem lá de fora é resumido em três grosseiras pinceladas e, no caso de não se confirmar a lenda, o que vem de fora acaba por ser devidamente enterrado no ruído das notícias inúteis. Não discutimos política, mas apenas personagens fulgurantes; a discussão é parecida com a lengalenga da missa, ouvimos atentamente os padres sem percebermos a lógica da doutrina, pois acreditar é mera questão de fé. Os problemas são coisa de espuma e atingem essa entidade de costas largas, o ‘povo português’, uma amálgama impessoal que, sendo toda a gente, não é ninguém conhecido. Os sindicatos fazem greve sem o apoio da classe que representam, os desistentes intelectuais cansam-se de competir com o vazio, os políticos inventam fintas onde se fintam a si próprios, os comentadores comentam-se uns aos outros, depois chegam senhores e prometem a redenção amanhã, pois a crise foi embirração de teimosos, capricho de maus europeus e de alemães maus.

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publicado às 19:02




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