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Eleições divertidas

por Luís Naves, em 12.03.14

Observando as reacções ao manifesto sobre a reestruturação da dívida, percebe-se que esta discussão ameaça estilhaçar a estratégia de todos os partidos nas eleições europeias.


O Governo não pode apoiar a ideia de restruturar a dívida sem torpedear a credibilidade que tanto custou a juntar nestes três anos: uma frase mal medida e os juros sobem. Claro que, em pensamento, qualquer extensão de maturidades ou perdão de juros seria bem recebido, mas os credores têm aqui o poder negocial, não é possível aos devedores falarem no assunto sem estragar a negociação e qualquer benesse terá de partir da iniciativa de Berlim e só depois das eleições europeias. Estas limitações são bem conhecidas.
O manifesto não é hostil à Europa e a reestruturação seria feita com o acordo dos credores, mas haveria mesmo assim enormes perigos, sobretudo se a estratégia era a de sair à irlandesa do programa de ajustamento. Em 1891, houve uma bancarrota em Portugal e, dez anos depois, a dívida foi reestruturada, mas o País ficou afastado dos mercados financeiros durante décadas e há quem faça a ligação entre a crise económico-financeira e a revolução de 1910. O último empréstimo desta dívida reestruturada foi pago em 2001 (não é gralha). Quanto mais se falar de reestruturação, mais difícil será a saída do programa de ajuda externa.

 

É natural que o Governo não aceite sequer discutir o tema. Na campanha eleitoral que se avizinha, a coligação PSD-CDS só pode dizer que o debate é inoportuno, como se ele tivesse sarna. Nenhum candidato apoiará a reestruturação. No entanto, os dois partidos estariam a mentir se dissessem que não desejam a extensão das maturidades ou juros mais baixos (até já se conseguiu isso uma vez, com grandes poupanças). O assunto é pantanoso e cada pergunta será incómoda, sobretudo a segunda ou terceira.
O PS parece completamente entalado: não pode apoiar a reestruturação mas como a tem defendido, sem usar a palavra, a sua posição é insustentável. Os socialistas querem facilidades e querem pagar tudo até ao último tostão, ou seja, pedem mais tempo e assumem a dívida, embora não possam usar a palavra reestruturação sem provocar um susto nos mercados ou, pior, uma subida dos juros. O PS é a favor do documento e não o pode apoiar nem renegar. Não foi à toa que o manifesto teve inspiração de dirigentes socialistas que já estarão na jogada seguinte.
O Bloco de Esquerda queria começar a atacar o euro, mas isso agora acabou, pois o ex-líder Francisco Louçã é um dos signatários do manifesto a favor da reestruturação responsável da dívida, ou seja, não hostil aos credores. De repente, foi ridicularizada a retórica da esquerda radical. O Partido Comunista, que começara a atacar a união monetária, terá de enfiar a viola no saco e apoiar a ideia de reestruturar a dívida, o que implica negociar com a Europa. Sair da moeda única? Nem pensem nisso, nós sempre fomos pela reestruturação.


Assim, estas eleições estão a ficar divertidas: toda a gente vai discutir a necessidade de consenso, já agora liderado pelo Presidente e pelos chamados notáveis, sendo que alguns destes notáveis têm sido a verdadeira oposição ao ajustamento. As reformas acabaram, queremos ter dinheiro para o crescimento, o mundo de ontem impõe um entendimento partidário que nenhum dos partidos verdadeiramente deseja mas ao qual todos terão de prestar a devida homenagem.

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publicado às 13:18


4 comentários

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De l.rodrigues a 12.03.2014 às 14:19

Que eu tenha percebido, Francisco Louçã sempre se manifestou contra uma saída do euro, alertando para as consequências. Seria interessante um debate entre Louça e João Ferreira do Amaral acerca do assunto.
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De Luís Naves a 12.03.2014 às 16:38

Exacto, sempre foi contra a saída o euro e o bloco estava entretanto a caminhar numa direcção mais critica da moeda unica
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De cristof a 13.03.2014 às 18:37

aquele jovem que após ter morto o pai e mãe pedia clemencia ao juiz porque era um pobre orfão vem a calhar se olharmos para os notáveis , que provavelmente os eleitores só ganham em reestruturar os ditos notaveis; 240 mil milhoes apos já provaram que a governar ou gerir com rigor são mesmo incompetentes.
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De joaquim a 26.03.2014 às 11:56

http://www.survio.com/survey/d/Q0P5U5N9S7M8Y2S9H

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