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É tudo demasiado frágil

por Luís Naves, em 10.04.18

No centro da cidade, há um constante inferno de ambulâncias que passam com as sirenes numa chiadeira assustadora. Isto aconteceu ontem à tarde: uma ambulância de bombeiros aproximava-se da avenida em velocidade cautelosa, num grande chinfrim, a tentar passar o vermelho; de súbito, em sentido perpendicular, houve um guincho de travões e o som horrível do choque brutal entre dois veículos, que ainda vi parcialmente: uma mota de grande cilindrada estatelara-se contra a traseira de um táxi que travara no verde para deixar passar a ambulância. Não me virei a tempo de ver o que acontecera ao motociclista, que foi a minha preocupação, o que acontecera ao condutor da mota? e só percebi toda a cena quando o táxi saiu do cruzamento, para parar um pouco mais à frente. No solo, jazia um homem e o insólito era o fatinho completo, a gravata encarnada, a cara atrás do enorme capacete preto, onde apareciam uns óculos com ar entre o aflito e o confuso. O homem estava estendido ao contrário do que eu pensara, tentou erguer-se e desfaleceu. Suspirei de alívio, porque ele parecia consciente e não fora atropelado por outro carro. Os homens da ambulância ficaram imediatamente no local, tudo se passou de forma civilizada, sem pressas nem pânico: estabilizaram o ferido, o taxista colocou o triângulo do seu veículo atrás da mota desfeita, no espaço de minutos chegou a polícia e o homem do fato permaneceu no solo sob a atenção dos socorristas. Não fiquei para ver se foi levado para o hospital, mas presumo que isso era lógico. Assisti apenas a isto, talvez a um acidente sem consequências, só mais tarde fui pensando no que não testemunhei: o motociclista estava estendido no solo com a cabeça virada para a mota, o que significa que terá dado um salto mortal completo no ar, com as pernas a rodarem 250 graus; isso também significa que caiu no solo desamparado e provavelmente de costas, com risco de partir ossos da bacia, um braço ou alguma vértebra. A vítima estava consciente e mexeu-se (bom sinal), mas não conseguiu pôr-se de pé. Talvez os ferimentos fossem ligeiros, mas era impossível não admitir mazelas mais graves e estive todo o dia a pensar na fragilidade de tudo: uma motona cara, o fato elegante, a vida cheia de sucesso, mas isso pode mudar em segundos, num qualquer acidente estúpido, porque travar uma mota é difícil e um táxi queria deixar passar uma ambulância que podia ter esperado pelo verde.

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publicado às 12:32




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