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Discriminados

por Luís Naves, em 08.09.15

Na sub-cave da sociedade húngara vive um grupo discriminado que não costuma suscitar grandes reacções emocionais. Falo dos ciganos, que aqui são de pele escura e estatura abaixo da média, os primeiros a perderem os empregos, os últimos a terem uma oportunidade na nova economia. Não costumam usar as cortesias do resto da população, falam húngaro com pronúncia e até cospem para o chão.

Com a crise de 2008, este país levou uma pancada fortíssima e sofreu o choque de uma mudança súbita em cima de duas outras que ainda não estavam bem assimiladas, a transição do comunismo e a adesão europeia. Corta o coração ver os bêbados nos jardins de Szeged. São dez da manhã e na praça Bartók quatro já cantam as suas mágoas, um deles inclinado sobre o ventre, como se estivesse adormecido ou em coma.

Vejo um pequeno incidente na paragem de autocarros: um sem-abrigo sujou o banco em que se sentam os passageiros e o fiscal da câmara (socialista) expulsa o homem, enquanto outro funcionário começa a lavar o local com uma mangueira. De súbito, enquanto caminha, o sem-abrigo estatela-se no asfalto da rua; não consegue levantar-se e um homem corre para o ajudar, mas o funcionário da câmara faz um sinal e toma conta do assunto; coloca umas luvas e ajuda o desgraçado, que se afasta.

Noutro ponto da mesma praça, os do subsídio de inserção fingem que varrem lixo (têm de trabalhar para receber o subsídio), e um cigano sobre-excitado, aos gritos com o filho obeso, atrai a atenção dos transeuntes, que acenam a cabeça em desaprovação silenciosa. O puto brinca com uma lambreta (pediu qualquer coisa ao proprietário e teve sorte deste não regressar), mas o pai enerva-se, berra, começa a partir o telefone público, depois vai à sua vida. Passa também um maluco imundo, a insultar o universo com os piores palavrões. Começam então a discutir os ciganos de um pequeno grupo que até aí conversara pacatamente; estão à beira de vias de facto, depois acalmam-se. As pessoas passam, indiferentes.

Na praça Bartók há uma Hungria escondida, enfim, relativamente visível, mas um segredo de família sobre o qual ninguém deseja falar. A classe média que habita os bairros bons da cidade está a um mundo de distância.

publicado às 15:34




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