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Diário

por Luís Naves, em 21.08.14

Não há verdadeiros diários, apenas o impulso de escrever todos os dias. Não seria possível colocar a verdadeira existência nestas linhas, embora seja possível tentar a representação aproximada de certas impressões e detalhes - o mapa do metro de Londres; um dicionário de língua húngara, daqueles com ilustrações de objectos; o capitão Haddock a espreitar pelo ombro de Tintim, num avião que vai a cair; pilhas de livros mal arrumados; longos cabelos castanhos da beldade burguesa numa gravura barata (como é que se chama o quadro original?); a pintura em seda que comprei em Islamabad, sobre as delícias do vinho, em pseudo-estilo Mogul; a minha gata de três cores que interrompe estas linhas (acho que está com fome ou a pedinchar carinho) - pois, não há verdadeiros diários, só combates com as palavras, a busca dos rumores do mundo, a insensatez das coisas, vozes na multidão, o romance que não anda, dúvidas, as dúvidas. Só há fragmentos do dia, livros fabulosos que outros escreveram, há hipócritas, azarados e bondosos, há o que não vale a pena e o que interessa, memórias desencontradas, murmúrios e conversas, amores e desilusões, tragédia e continuidade. Há textos insuficientes e títulos impossíveis, pois não se resume assim, dia a dia, o que nos passa pela cabeça.

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publicado às 11:01




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