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Desagregação

por Luís Naves, em 15.11.15

Não vivemos apenas na era da incerteza, mas num tempo em que existe boa dose de desagregação. Onde havia nações capazes de se unir perante um desafio, temos agora sociedades fragmentadas em grupos pequenos, incapazes de um mínimo de coerência e por vezes hostis entre si. O que era relativamente uniforme está hoje dividido. Isso não se vê apenas nos grandes conflitos políticos, mas nas células do corpo social, nas famílias, nos próprios indivíduos. A solidão tornou-se a normalidade e as ideologias são matéria de fanatismos minoritários.

A fragmentação das sociedades estende-se à cultura, que é de nichos ou de massas. As identidades estão em estilhaços. As pessoas deixaram de se entender quando surge a pergunta quem somos? Vivemos numa mistura de hipocrisia e culpa, de insegurança e agressão, em contradições permanentes, por exemplo, quando nos comovemos com realidades distantes e ignoramos a desgraça alheia que vemos à porta de casa. Somos incapazes de olhar para o vizinho, mas vertemos uma lágrima pelo desconhecido na televisão. Deixámos de sentir a realidade, da qual estamos separados por um vidro transparente. O mundo contemporâneo é mais livre e tem obviamente mais possibilidades, mas possui esta vulnerabilidade da indiferença. Um mundo muito virado para o lucro, onde o horizonte do futuro é um par de horas, onde já não cabe a lentidão e a memória de pouco serve. Um mundo onde o efémero muitas vezes repetido não pode somar uma eternidade.

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publicado às 11:39




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