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Deambulação a propósito das épocas felizes

por Luís Naves, em 02.03.15

Em Memórias de Adriano, livro repleto de sabedoria, Marguerite Yourcenar consegue a difícil mistura de erudição e imaginação sem a qual não é possível escrever um bom romance histórico. O texto é uma longa meditação sobre a vida, o amor, a ambição e o envelhecimento, mas também reflexão política, onde o narrador questiona o poder e a fragilidade daquilo a que chamamos progresso. Adriano, que reinou entre 117 e 138, simboliza um período feliz da civilização romana.

Esta figura histórica recriada por Yourcenar fez-me pensar na coincidência de talvez vivermos num desses raros momentos felizes da civilização, mundo de telefones portáteis, combustíveis fósseis, mercados instantâneos, rivalidades globais e excesso de narcisismo. Aos nossos antepassados calharam tempos bem mais difíceis, de existências curtas e muitas vezes violentas, de incertas lutas pela liberdade, com os bárbaros à porta e a decadência bem à mostra. A súbita loucura de um tirano ou de um incompetente podia deitar a perder séculos de esforços. E talvez isso não tenha mudado.

Sem relação com Adriano, li sobre um dos extraordinários fracassados da História, o imperador bizantino Romano IV Diógenes, que governou entre 1068 e 1071. General escolhido para travar o declínio de Constantinopla, Diógenes foi responsável por um dos maiores desastres estratégicos do Império Bizantino, a derrota na batalha de Manziquerte, que podia perfeitamente ter sido evitada. O imperador foi aprisionado e o seu captor, o sultão seldjúcida Alp Arslan, perguntou-lhe o que teria feito se, em vez de ser prisioneiro, o tivesse capturado a ele. “Provavelmente, matava-te”, respondeu o imperador. “Pois farei muito pior do que isso”, disse o sultão, “vou libertar-te”.

E assim foi, após uma semana em que imperador e sultão comeram à mesma mesa e negociaram algumas cedências bizantinas. Ao regressar a Constantinopla, Romano IV Diógenes foi preso por um usurpador, o seu maior rival, o co-imperador Miguel VII Ducas, que chegara primeiro à capital e liderara um golpe palaciano. Ducas prendeu Diógenes e mandou que o cegassem. O ex-imperador morreu pouco depois, vítima dos horríveis ferimentos, e o império mergulhou no caos, com décadas de instabilidade, crise económica e até guerra civil, permitindo aos turcos a conquista fácil de grande parte da Anatólia.

publicado às 19:22




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