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Crónica demasiado pessoal de um velho Tempo

por Luís Naves, em 06.07.16

A morte de um jornal não tem a gravidade de uma morte humana, mas é à sua maneira um grande abalo na vida das pessoas e na memória das sociedades. Lembro-me daquelas semanas sombrias, quando O Tempo fechou. Talvez fosse inevitável, mas nunca soube a verdadeira razão do declínio a que assisti. É daquelas coisas que não se esquecem: só se falava do outro jornal que também fechara portas por esses dias, o Diário de Lisboa, e o encerramento de O Tempo era um notícia envergonhada e minúscula, como se tivesse falecido aquele familiar embaraçoso cujo nome não devia ser mencionado. Era ainda um jovem irreflectido, mas julgo que recebi a minha primeira grande lição sobre os dois pesos e duas medidas que regem a política.

Quando entrei em O Tempo, dois anos antes, em 1987, já na rampa inclinada, a redacção era um lugar estranho, juntando jornalistas com ideias diversas, de várias gerações e diferentes pancadas. Não havia facções definidas, nem rivalidades, nem me recordo que houvesse as maldades que depois encontrei em outros ambientes, pelo contrário, existia uma espécie de alegria ingénua e contagiosa. O director e proprietário, Nuno Rocha, era um homem elegante e alto, de sorriso fácil, charmoso e simpático, que tratava toda a gente da mesma maneira. Acho que gostou de uns textos que escrevi à experiência (obrigado, Fernando Sousa, pela oportunidade) e decidiu contratar-me. Entrei na mesma semana em que começou a sua brilhante carreira de jornalista o Pedro Camacho, mas ao contrário desse meu outro amigo, julgo que fui um erro de avaliação de Nuno Rocha, que viu em mim um talento inexistente.

 

A minha vida teria sido diferente

Se não tivesse entrado naquela altura na redacção de O Tempo, tudo para mim teria sido diferente. Em reportagem para o jornal conheci o amor da minha vida, pode parecer pedante ou piroso, mas é a pura verdade: sou um caso raro desse género de acontecimento e tratou-se de circunstância pouco profissional, pois o jornalista não se deve envolver demasiado no assunto que observa, embora não acredite no distanciamento ou no jornalismo que se demite de também sentir o mundo. Como já disse, fui um erro de casting.

Os outros jornalistas daquela redacção anacrónica ensinaram-me quase tudo o que aprendi na profissão que pratiquei durante 25 anos e certamente tentaram transmitir-me muito do que nunca cheguei a entender dela. Eram repórteres experientes e sabiam da minha falta de jeito, mas o Nuno Rocha talvez não se tenha dado conta: na praxe do caloiro (juro, isto é verdade) enviaram-me em reportagem à sede da NATO, em Bruxelas, e escrevi duas páginas de banalidades que encantaram o director. Nessa viagem, só havia craques enviados por outros jornais (lembro-me do Afonso Camões e do Miguel Gaspar); o Fragoso Mendes, do DN, perguntou-me há quanto tempo era jornalista e eu, parvo, disse a verdade, desde a semana passada, e o Fragoso, filosófico: ‘Está tudo doido’. Talvez a loucura possa ser explicada; como a redacção era pequena, escrevíamos sobre tudo e mais alguma coisa. Que melhor escola podia existir?

 

Vítima do Cavaquismo que defendera

Pedro Correia conta nesta belíssima crónica como era a redacção de O Tempo no início dos anos 80 e escreve um belo texto de memória sobre Nuno Rocha, que faleceu ontem, aos 83 anos. Também é muito justa esta evocação assinada por João Cândido da Silva: Reconheço imediatamente o retrato de um jornalista que marcou toda uma época. Mas eu tive menos sorte; assisti aos dois últimos anos, de declínio e morte de O Tempo. No colapso, havia razões financeiras que nunca entendi, talvez fosse parte de uma crise mais geral dos meios de comunicação, confrontados com a súbita perda de leitores ou de interesse em publicações centradas nos assuntos políticos e na discussão das grandes clivagens ideológicas. Os jornais eram caros de fazer e distribuir e precisavam de uma modernização da linguagem, da imagem e do estilo. Talvez fosse isso que faltou.

Não conheci intimamente Nuno Rocha (ele era meu director), mas testemunhei alguns momentos da sua humilhação pública. Lentamente, perdeu o controlo da empresa e via-se no olhar o desespero do fracasso ou de quem tombava de muito alto. Asseguro-vos, uma das coisas mais tristes é assistir à queda de um anjo. Ele, que tinha sido o grande jornalista, o homem poderoso, que dirigira um jornal de enorme êxito, confrontava-se então com a perspectiva da falência. Foi lamentável o episódio em que Nuno Rocha perdeu o controlo da sua criação e acabou escorraçado, como um velho incómodo. Mil perdões se falto à verdade, mas foi isto que vi, o poder de direita já não precisava de um jornal de direita que concordava com esse poder. Ironia, O Tempo foi vítima do Cavaquismo que defendera com unhas e dentes. E a ‘classe jornalística’ assistiu ao fim com um encolher de ombros: afinal, era uma publicação de direita.

 

Não se regressa da derrota

Nuno Rocha perdeu o controlo do jornal e teve de sair. Da agonia ao fecho foi um processo rápido. Provavelmente, não houve investidores para a modernização, também não havia entusiasmo para a concretizar. A redacção esvaziara-se e eu fui um daqueles que não saíram a tempo. Havia outros, todos personagens de romance. E não posso deixar de lembrar aqui a tragédia de Eduardo Guerra Carneiro (das prosas mais perfeitas que encontrei na vida) um dos que foram ficando no esquecimento que não mereceram. Enfim, na fase terminal, o raciocínio deixara de ser o do entusiasmo e da tolerância, o poder não precisava daquilo, era mais fácil fazer outros projectos de raiz, com menos jornalismo e mais do resto que temos agora em abundância.

Nas décadas seguintes, encontrei-me com Nuno Rocha algumas vezes. Ele perguntava-me pela minha mulher, era mesmo a primeira pergunta que me fazia, sempre com ternura. Sabia da minha história. Mantinha aquele ar distraído e a mesma elegância no trato. Julgo que tentou outros projectos porque não podia estar quieto, mas fracassaram um bocadinho ou nenhum deles triunfou, não sei. Eu fui à minha vida, o Nuno nunca conseguiu regressar da sua derrota, depois reformou-se, deixou de ser falado. E o que aprendi com ele? Ah, a resposta a essa pergunta é relativamente fácil: aprendi o valor da liberdade, o seu valor inestimável e precioso, pois foi isso que existiu sempre no jornal dele. Como é que se escreve sem usar esse elemento tão custoso de ganhar e tão penoso de manter? Não sei se é possível, só sei que escrever com liberdade vale bem uma derrota sem regresso.

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publicado às 22:46




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