Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Classes sociais em Camilo II

por Luís Naves, em 16.03.16

É impressionante o contraste entre romances divertidos de Camilo Castelo Branco (As Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado) e as suas obras sérias, como por exemplo As Memórias de Guilherme do Amaral, livro ultra-romântico em que Camilo conta a história de um amor funesto e condenado. Este livro é contemporâneo do esfuziante Basílio Enxertado, mas para um leitor actual é difícil aceitar todo aquele sentimentalismo de xarope, as razões pouco válidas (a olhos de hoje) em que se baseia a suposta infelicidade das personagens. A situação dos amantes seria impossível para gente actual e a barreira das transformações sociais ergue-se dentro das páginas, como um muro intransponível.

As mesmas ideias românticas surgem em vários romances de Camilo, por exemplo em O Santo da Montanha, de 1866, que curiosamente envelheceu bem. O escritor conta a história de um amor trágico, sem perceber que para os leitores do futuro esta seria uma história plausível sobre um violento crime passional, aliás duplo. Um leitor do século XXI vê um psicopata e as suas vítimas, onde porventura o leitor da época de Camilo veria um amor infeliz e os seus excessos. É isso que mantém a actualidade do livro: os leitores do futuro compreendem algo que já estava no texto, por ser apropriação de uma realidade imutável, mas vista então de forma diferente. O livro mantém-se actual por pegar num tipo de crime que ainda existe. Nota-se que Camilo tem terror do seu próprio tema e se vê forçado à redenção do protagonista; o que aos olhos de um leitor de hoje parece de todo improvável. Sim, a parte inverosímil de O Santo da Montanha, o desenlace com a expiação dos crimes, está fora da psicopatia da personagem principal, por isso é difícil de aceitar por um leitor do século XXI, entretanto exposto a literatura bem mais pessimista.

publicado às 10:25




Links

Locais Familiares

Alguns blogues anteriores

Boas Leituras