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Classes sociais em Camilo I

por Luís Naves, em 15.03.16

A questão das classes sociais é uma verdadeira obsessão para alguns dos melhores escritores portugueses. Em 1863, Camilo Castelo Branco escreveu um delicioso volume, As Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado, cuja actualidade, século e meio depois, não foi minimamente beliscada. Neste romance satírico, o protagonista, milionário de origem modesta, é várias vezes humilhado publicamente e posto no seu lugar da ordem social por gente de origens ilustres, mas com menos dinheiro no bolso. Alguns dos episódios mais divertidos andam em torno destas questões. A modernidade das aventuras de Basílio Enxertado está sem dúvida no humor da prosa, no ritmo alucinante, na caracterização perfeita das personagens, está também na forma como aparece o narrador (Camilo é brilhante a inventar como soube deste pormenor ou daquele), mas não podemos esquecer a actualidade da situação: um milionário que procura tornar-se barão não passa afinal de um rapaz do povo, com a sua dose de ingenuidade, manha, força bruta, ignorância, simplicidade, teimosia e franqueza.

O tema da ascensão social é recorrente em Camilo, autor que não deixa de transparecer certo incómodo com o enriquecimento súbito de membros das classes baixas, com alfinetadas mesmo nos casos das personagens positivas, como é exemplo o galego Gregório de Redondelo, “herói” de Coisas Espantosas, publicado em 1862. É impossível não gostar da figura e, no entanto, lá surgem as alusões à imensa fortuna, que o grande homem coloca ao serviço do bem, mas sem que esse dinheiro consiga introduzir sofisticação no respectivo verniz social. Os brasileiros ou escravocratas com fortunas acumuladas em sertões distantes são personagens frequentes na obra de Camilo, mas raros os que, tal como acontece com Gregório, conseguimos ver de forma positiva.

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publicado às 10:19




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