Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Carta da minha sobrinha-neta Flora

por Luís Naves, em 06.04.18

Carta da minha sobrinha-neta, Flora, escrita em 2100, enviada pela máquina do tempo que ela mesma inventou, na sua primeira experiência. A carta apareceu-me hoje assim, manuscrita, na minha secretária:
«Querido tio, gostava que aqui estivesses, para poderes ver o meu mundo, tão diferente daquele que imaginaste. Não posso dizer que somos todos mais felizes do que no teu tempo, pois isso seria exagero e mentira, mas vivemos numa sociedade que, apesar dos seus defeitos, é mais justa do que aquela que conheceste, mais rica e progressiva, mais optimista e segura. Somos mais sábios? Não me parece, mas sabemos mais coisas, o que não é o mesmo. Os problemas da tua época não têm a mesma forma na minha, mas persistem neste tempo alguns dos defeitos menores da nossa espécie, a inveja, desprezo, medo, ambição e os chamados erros humanos em geral, que resultam das fraquezas correntes e que seria apesar de tudo uma grande pena perderem-se pela inevitável e progressiva modificação da nossa natureza. É talvez o problema que mais nos apaixona: até que ponto queremos manter a natureza humana, prolongar a vida, aumentar as nossas capacidades mentais e físicas, incluir uma parte maquinal nos nossos corpos, viver em comunidades de consciência alargada, entre outras amplas possibilidades tecnológicas que dificilmente poderias entender. Os meus pais ensinaram-me a gostar e cuidar de pessoas e assim vivi todos estes anos, já não vou mudar, embora me preocupe a longevidade e, claro, tudo farei para atrasar o meu próprio envelhecimento e a miséria da decadência. Tenho 82 anos, o que nesta época ainda é ser jovem, por isso viverei mais umas décadas. No ano em que nasci, em 2018 (lembras-te quando me pegaste ao colo?) sei pelos teus apontamentos que imaginaste um futuro com viagens mais velozes, energia abundante, gente em demasia, crises sociais e poderes oligárquicos. No fundo, olhavas para a tua realidade e pensavas como ela iria evoluir através de mais do mesmo: haveria aviões, mas mais rápidos, computadores mais pequenos, pessoas mais saudáveis, conflitos com mais fogo-de-artifício, um capitalismo mais selvagem. Não aconteceu exactamente assim, houve saltos súbitos e mudanças profundas, sobretudo quando acabaram os combustíveis fósseis e descobrimos a forma de viajar entre as estrelas e de construir autómatos capazes de fazer todo o trabalho mecânico. Não, não concluas que somos indolentes e preguiçosos, dispomos de um exército de escravos robóticos, mas cada indivíduo pensa em ser útil e, na realidade, vivemos uns para os outros. Dedicamo-nos à fantasia e à busca da felicidade, libertámo-nos da ideia de utilização finita de recursos (usamos sempre menos do que está disponível), explorámos outros sóis na galáxia e levámos connosco o esplendor da vida, com nova compreensão da mortalidade e melhor entendimento do universo. Tudo aquilo que entre nós te poderia horrorizar (as experiências de mente colectiva, por exemplo, ou a minha máquina do tempo), possui também alguma coisa de milagre; as nações diluíram-se e as culturas misturaram-se, não há fronteiras (excepto em alguns locais que escolheram manter-se isolados), temos mais liberdade e tolerância. Pensarias porventura que, para as nossas idades, somos infantis, ingénuos e demasiado irreverentes, certamente ficarias surpreendido com a sofisticação artificial e algo pedante das conversas que mantemos à hora do chá. Talvez te fizéssemos rir e talvez nos ríssemos de ti, meu tio-avô, que estás tão sério neste velho retrato da tua meia-idade, uma imagem diluída que tenho à minha frente e me leva, através da espessa névoa que cobre o oceano do tempo, a vagas memórias da tua existência»

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:42




Links

Locais Familiares

Alguns blogues anteriores

Boas Leituras