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Carta aberta a alguém que a possa ler em 2115

por Luís Naves, em 28.01.15

Pergunta-me o que fazíamos e do que falávamos e confesso que não há muito a dizer sobre o assunto e nada o poderá verdadeiramente surpreender. As nossas conversas, para si velhas de cem anos, eram quase sempre sobre outras pessoas, todas concretas, mas também ocupávamos o nosso tempo a falar sobre comida, futebol e sexo e, no caso deste último, era má educação ser explícito e considerado espirituoso usar elipses e fazer alusões oblíquas. Não se esqueça que sem essas subtilezas você nem sequer existia. De resto, a nossa conversação devia parecer-lhe normal e familiar, tirando algumas expressões que talvez se tenham tornado obsoletas. Éramos assim, porventura iria considerar-nos ingénuos e antiquados, até arcaicos, mas os nossos pensamentos não seriam tão diferentes dos seus: tínhamos os mesmos ciúmes e as mesmas invejas, paixões das mais diversas; apreciávamos a sedução e os prazeres, por vezes sentíamos a desilusão e o medo de falhar. O resto era igual, odiávamos, amávamos, íamos vivendo.

As imagens que viu de nós, os arquivos onde guardaram os nossos livros e jornais, tudo isso será um pouco enganador, pois não nos interessávamos assim tanto por política e nem sempre era lisonjeira a nossa opinião sobre as celebridades, e não me refiro a essas em que está a pensar, mas a outras pessoas, cujos nomes se calhar não lhe dizem nada, mas assim é a lei da fama, sempre cruel, tanto para os que vai esquecendo como para os que escolhe recordar e que, em vida, geralmente são ignorados. Enfim, também pensávamos muito em dinheiro e sonhávamos em mudar de país, mas lá íamos existindo, razoavelmente felizes, conforme os casos (não se ria, por favor!), sobretudo não nos veja como velhos ignorantes, pois em muitos de nós havia substancial juventude e nos restantes abundava a ideia nostálgica dos anos dourados do passado. Esqueça as roupas que lhe devem parecer ridículas (também será ridículo no seu futuro) e não pense que a nossa existência era assim tão difícil sem os objectos que entretanto foram sendo inventados e que para si parecem imprescindíveis. Ah! não vivemos as suas aventuras, isso não: os mundos que no seu tempo se descobrem eram por nós apenas imaginados, embora, quero crer, não fossem menos fabulosos.

publicado às 11:02




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