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Boletim meteorológico

por Luís Naves, em 18.11.14

“A história passa por nós sem deixar marcas”. Encontro esta frase num livro de Philip K. Dick, O Homem do Castelo Alto. A personagem que assim pensa queixa-se de tédio, de que nada de relevante acontece e, de facto, para nós, os anónimos, as grandes transformações pouco mudam. Assistimos ao correr da história como espectadores desatentos: a cimeira de estadistas (e há quem diga que já não existe essa estranha espécie), o crime absurdo na sinagoga, o distante e sofisticado bombardeamento de uma aldeia remota onde nada se sabia sobre novas tecnologias, os tremeliques da bolsa, pequenos impulsos que revelam a batida do coração do dinheiro. Tudo isto nos interessa à semelhança do boletim meteorológico de ontem. Céu nublado com boas abertas, regime de aguaceiros, pelo menos assim parece, visto da janela. As tempestades ou o sol radioso deixam pequenos sinais na paisagem, o ramo de árvore partido, o campo de girassóis seco e queimado. Sendo de um patamar que não controlamos, logo surge o hábito de olharmos para essas marcas ténues como se ali estivessem desde sempre.

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publicado às 10:40




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