Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Através do vidro

por Luís Naves, em 21.11.14

Como é difícil descrever os aromas da vida. Um cheiro indefinido e doce, que mistura canela e talvez rosmaninho e ozono, fez emergir memórias antigas. Caminho por uma rua suburbana, tenho dez anos, é fim de tarde e há um vento forte que me faz olhar para a glória transparente do céu, onde flutuam nuvens e uma luz de cristal. Vai chover.

A memória dissipa-se e sinto outros odores, também indefinidos e que não me distraem, enquanto vejo, sem querer, através da grande janela, a mulher sentada no interior do café. Os reflexos do vidro produzem um véu que a torna pálida e, nessa imagem de espelho, estou eu a olhar para ela e, depois, estou eu a olhar para mim. Poderia encontrá-la daqui a um ano e não a reconheceria. Posso ter-me cruzado com esta mulher há um ano, mas se isso aconteceu não me lembro. Não é especialmente bonita, embora o pensar distraído a faça atraente. Cabelo normal, corpo demasiado magro, talvez um filho com dez anos. A expressão absorta parece resultar de alguma recordação feliz, mas não sei bem o que é isso da felicidade, porventura apenas o momento, quando a restante existência fica em suspenso, sobretudo o tédio e a repetição incessante dos dias.

Quero muito recordar este momento, mas não sei porquê. A desconhecida observa a rua através da janela do café barulhento, mas procura algo além do horizonte. Em que estará a pensar? Numa impressão despertada por algum perfume, talvez a mesma ideia que me ocorre, que inclui uma canção trivial e a rua de subúrbios onde eu caminhava. Gostava de meter conversa, de a conhecer, mas isso não é possível. Nesse espelho onde vemos os outros, procuramos primeiro a nossa própria imagem. Que desejava eu saber dela, exactamente? Um bocadinho mais do que nada e tudo o resto que ela tem de mim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:30




Links

Locais Familiares

Alguns blogues anteriores

Boas Leituras