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Até à estação seguinte

por Luís Naves, em 03.10.14

O velhote fala de maneira divertida, com ar sério, a explicar com um gesto da mão direita. Lábios finos, óculos, sapatos em mau estado, boné na cabeça. Refere solenemente à vizinha do lado um pormenor sobre doenças antigas e, na conversa seguinte, falando com a senhora em frente, vai dizendo em voz alta que os preços andam malucos. A sua opinião tenta vencer o barulho da composição do metro que corre a alta velocidade dentro do túnel e tenta em vão abafar o aparelho de alta tecnologia que o jovem vestido de preto esconde na mão (encostado ao ouvido, mas toda a gente também ouve). O aparelho parece uma pequena nave espacial, com umas luzinhas coloridas. Na carruagem, viaja uma secção do mundo: pessoas distraídas ao lado das que meditam, das que pensam em sexo, das que pensam na morte, das que não pensam em nada. Ouvem rap suburbano sobre problemas e escutam a conversa sobre doenças e a conversa sobre preços e os problemas de alguém conhecido, sempre alguém próximo, embora nunca o próprio. E a vida corre pensativa, através da galeria subterrânea, até à estação seguinte, onde há azulejos floridos, com selvas, animais e mistérios.

publicado às 10:25




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