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As próximas eleições (8)

por Luís Naves, em 21.05.14

As eleições europeias serão em toda a Europa uma boa oportunidade para os eleitorados se manifestarem num voto de protesto que penalize governos e partidos tradicionalmente mais poderosos. A fortíssima abstenção, comum a todos os países que votam nestas eleições, será outro sintoma de que muitos eleitores não levam a sério o Parlamento Europeu, dando-se ao luxo de nem sequer votar. Isto tem sido assim nas eleições anteriores, mas é provável que este ano seja mais nítido, devido ao descontentamento em relação à crise europeia e a um segundo fenómeno: parte do eleitorado terá a noção de que assiste a uma elaborada farsa política digna da melhor commedia dell’arte.

Este artigo de Luís Menezes Leitão, no Jornal i, explica muito bem o problema. Este post de Mr. Brown, em os Comediantes, toca na mesma ferida. O Conselho Europeu escolhe o Presidente da Comissão e obviamente os governos não podem abdicar desse poder. Apesar de tudo, também não convém exagerar sobre a verdadeira influência da chanceler alemã na escolha do futuro (ou futura) presidente.

O velho problema do défice democrático da UE não se resolve aumentando os poderes do Parlamento Europeu, pois essa seria uma cedência de soberania bastante perigosa para os pequenos países, tendo em conta que esse parlamento seria dominado pelo bloco central dos conservadores e socialistas, onde teriam peso desproporcionado alemães, franceses ou espanhóis.

Para piorar a situação, e como bem refere José Gomes André, em Delito de Opinião, a campanha eleitoral portuguesa teve uma pobreza evidente, com a proliferação de pequenas cenas mais ou menos cómicas, onde vimos Arlequins e Colombinas, o capitão Spavento contra Malagamba, mais as tropelias de Pantalones e Tristanos.

 

No domingo, irão todos derramar lágrimas de crocodilo pela alta abstenção, dizendo que a complexidade das questões europeias explica a punição das duas candidaturas que defendem o Tratado Orçamental que regula a zona euro, cuja discussão foi abaixo de zero. O pior é que também não nos disseram na campanha que não estaremos com toda a probabilidade a eleger o próximo presidente da Comissão Europeia, mas apenas um grupo de deputados a um parlamento que, do ponto de vista do interesse nacional, nem sequer convém que tenha demasiados poderes (o Parlamento Europeu jamais escolheria um português como Presidente da Comissão, como aliás recusou ter um político com o prestígio de Mário Soares a presidir ao próprio PE). Também não nos disseram que o futuro europeu do País se joga entre ficar ou sair da zona euro, entre aprofundar a integração ou percorrer o caminho do isolamento, entre concluir as reformas ou ficar para trás. Cruel lição: a política do fait divers gera desinteresse e cinismo no eleitorado. No fundo, é simples.

publicado às 10:35




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