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As próximas eleições (4)

por Luís Naves, em 14.05.14

Nas redes sociais e até nos media tradicionais, o discurso público está a tornar-se cada vez mais populista. Ao longo dos últimos anos, foram frequentes as queixas sobre políticos. Segundo estas opiniões, a política tinha gente de má qualidade e partidos sem alma, pelo menos em comparação com um passado mítico. Tornou-se de bom tom escrever que não havia políticos de jeito e o caldo de cultura foi alastrando, até se transformar num lugar comum. Hoje, qualquer pessoa o afirma: nenhum político é decente, nenhum partido serve o povo.

A esquerda foi especialmente responsável por esta mentalidade e é curioso perceber que os partidos de esquerda que lançaram a moda não escapam agora ao próprio veneno. Os seus candidatos parecem ter dificuldade em convencer os eleitores a aceitar os folhetos de propaganda.

 

A generalização simplista escolheu entretanto uma nova vítima e desenvolveu uma embirração com a Europa, que começa a ser visível nos discursos da maior parte das forças de esquerda e nos comentários de alguma direita ainda não formalmente organizada. A Europa é descrita como fonte de problemas, organização caótica e sem futuro, razão principal do nosso atraso ou conspiração tenebrosa que nos obriga a viver mal. Embora não resista aos factos, a ideia da Babel condenada ao colapso tem sido muito repetida nos primeiros dias da campanha eleitoral.

Era interessante imaginar como seria Portugal sem a adesão europeia e parece que algumas pessoas desejam fazer a experiência: não tenho dúvidas de que seria um país muito mais pobre, menos liberal, provavelmente governado por jacobinos ou por uma junta militar. A integração é a melhor garantia de que teremos um regime democrático e próspero, com liberdade, estabilidade e paz. E, no entanto, sem que se vislumbre alternativa sequer razoável, a Europa começa a ser vista como algo a rejeitar.

 

As ideias populistas contra o sistema partidário e contra a integração europeia têm feito progressos também no resto da Europa. Estas teses são hoje a maior ameaça à democracia. É também curioso perceber que as críticas à integração europeia sejam por estes dias acompanhadas de opiniões muito favoráveis ao imperialismo russo, que é visto como normal. Por vezes, as mesmas pessoas que fustigam a alegada ‘fraqueza da Europa‘ conseguem ver algo de positivo na República Popular de Donetsk.

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publicado às 19:51




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