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As próximas eleições (2)

por Luís Naves, em 10.05.14

O Partido Socialista terá cometido dois erros, ao não aceitar no Verão passado as eleições antecipadas que lhe eram proporcionadas de mão-beijada, mas sobretudo ao escolher um tom demasiado crispado na retórica anti-resgate, o que contrastou sempre com a obrigação de não inviabilizar as medidas. Assim, o PS ficou numa posição ambígua: apostou no falhanço do programa de ajustamento e agora será difícil reivindicar mérito na respectiva conclusão.

O Governo, por seu lado, pode dar-se ao luxo de reclamar o êxito do resgate (por ironia negociado pelos socialistas) e até de dar migalhas aos “parceiros sociais”, esquecendo por inteiro a oposição. A estratégia da credibilidade começa a dar frutos: a recuperação do emprego não é um fenómeno sazonal; há sinais de retoma do investimento e do consumo; as exportações continuam a crescer; as contas públicas entraram numa trajectória de equilíbrio e a baixa dos juros da dívida reflecte essa consolidação orçamental; a retoma económica na Europa consolida-se e vem aí uma vaga de fundos comunitários.

Assim, o ritmo de austeridade pode abrandar, pois a pressão internacional será menor sem a troika. O FMI, que funcionou sempre como o polícia mau da equação, deixou de ser o parceiro determinante e a Comissão Europeia terá um vazio de liderança até Outubro; o próximo presidente da comissão pode até ser um socialista que mostrará em 2015 dificuldade em fazer demasiadas exigências a um país que fez todos os sacrifícios que lhe foram pedidos.

Apesar de tudo, convém lembrar que a austeridade não acabou e é preciso fazer mais reformas impopulares, mas a urgência deixa de existir e algumas dessas reformas (por exemplo, na segurança social) exigem a participação da oposição. As eleições europeias deste mês prometem forte abstenção e dificilmente o conjunto aliança (PSD, CDS) somado ao PS terá mais de 70% dos votos, pelo que a votação de protesto será provavelmente enorme. O centro-direita perdeu muitos votos que não regressam, mas falta um ano e meio para as legislativas.

O PS cometeu o erro de não acreditar na viabilidade do programa de resgate que pediu e negociou, terá assim dificuldade em associar o seu nome aos êxitos do ajustamento, que serão visíveis em 2014. Os seus dirigentes falam como se a vitória em 2015 fosse certa, mas um ano e meio em política é uma eternidade.

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publicado às 13:44




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