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As próximas eleições (12)

por Luís Naves, em 23.05.14

Vista de fora, a Europa é motivo de inveja, mas também um continente dilacerado, povoado pelos perigosos fantasmas que a pintura expressionista tão bem captou. Se faltava a demonstração, temos o exemplo da Ucrânia, que vota em presidenciais no domingo com larga fatia do seu território, um pedaço do tamanho de Portugal, à beira da guerra civil. No Donbass, uma das regiões mais férteis do país, o poder está nas mãos de grupo informais chefiados por facínoras (em muitos casos estrangeiros), grupos esses que instauraram a lei da selva em cidades que até agora viviam em paz.

O autoproclamado presidente da câmara de Slaviansk, para citar um exemplo, tem dezenas de reféns (‘prisioneiros de guerra’) na cave de um edifício público ocupado pelas milícias pró-russas e é suspeito de homicídio. Nesta cidade, há dezenas de desaparecidos e dali saíram centenas de refugiados. Nas regiões rebeldes, os ucranianos estão impedidos de se exprimir a favor do seu próprio país e o clima de terror foi imposto por agentes com ligações aos serviços de segurança russos e que adquiriram rapidamente dinheiro e meios militares sofisticados. Muitos milicianos, talvez a maioria, vieram da Rússia.

As barbaridades decorrem neste exacto momento, num país europeu. Foi entretanto criada uma ficção política, a República Popular de Donetsk, que utiliza símbolos soviéticos e onde se realizou uma farsa referendária que, entre nós, parece satisfazer muitos observadores.

 

 

A Rússia foi sempre vítima da extensão excessiva do seu império e tem hoje condições deficientes para manter um território tão gigantesco com população em queda, para mais havendo neste império dezenas de áreas habitadas por minorias que alimentam ressentimentos históricos em relação aos russos. Moscovo precisa do dinheiro dos ocidentais e da sua tecnologia, mas o Kremlin parece mais virado para a reconstituição da superpotência que perdeu a Guerra Fria, tentando recriar um colosso energético e militar, do qual dependeriam europeus e chineses, já agora em sentido e com muito respeitinho.

Este império com pés de barro é governado com mão de ferro, como se viu na Chechénia, perante a indiferença geral; a periferia sofre um assédio implacável, como se viu por duas vezes na Geórgia, mas também na Arménia e na Moldova. Não admira que haja apoio incondicional de Moscovo às cruéis ditaduras da Ásia Central e da Bielorrússia.

O novo império russo constitui um sonho megalómano praticamente ao estilo do século XIX, sustentado em oligarcas que lembram os aristocratas do tempo dos czares, e que se comportam como tal, a esbanjar em clubes de futebol, mansões e outros luxos as imensas riquezas naturais das quais se apropriaram.

 

O conflito ucraniano, neste momento o mais grave problema europeu, é um infortúnio sem grandes saídas. O presidente russo, Vladimir Putin, já ganhou o território da Crimeia, prepara-se para anexar o Donbass e intimidou os seus adversários reais ou imaginários, mas também destruiu a oportunidade de transformar o seu próprio país numa democracia ou de fazer uma aliança estruturada com a UE.

O que restar da Ucrânia (a parte que votar no domingo) vai juntar-se à Europa de forma acelerada. A República Popular de Donetsk ou algo que vier a seguir poderá ser absorvida pela Rússia ou descerá ainda mais no caos. Moscovo terá um novo motivo para temer o Ocidente e remoer os seus rancores. A oligarquia russa continuará a viver num delírio fora do tempo. Os países da Europa Central mudarão as suas políticas energéticas e vão moderar a dependência que têm da Rússia. No final, teremos de esperar mais duas ou três décadas pelo renascimento dessa fantástica potência europeia do pensamento e da civilização, a Rússia dos imortais Tolstoi, Tchekov, Chostakovitch e tantos outros, a sempre adiada terceira Roma, que possui esta sina dramática de ser governada por lunáticos ou por irresponsáveis sanguinários.

 

Este é o último texto de uma série sobre as eleições europeias de 25 de Maio de 2014, a imagem final é do pintor russo Chaim Soutine, que muito admiro.

 

publicado às 18:27




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