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As pessoas comuns

por Luís Naves, em 02.02.15

As pessoas comuns não apreciam assim tanto a política, pelo menos as pequenas manobras tácticas, muitas vezes confundidas com o processo mais sério da tomada de decisões, mas que não passam de subproduto de má qualidade. No final, estamos mais preocupados com a vida estagnada, os empregos sob ameaça, a lufa-lufa quotidiana, os amores e o dinheiro. Ficamos mais velhos e sentimos a insegurança física. O trabalho, quando existe, é competitivo, aceitam-se salários baixos. Depois, a vida é difícil: há rumores sobre mudanças, coisas inquietantes que, sem dúvida, nos vão afectar, mas que não controlamos. As pessoas não se interessam assim tanto por política, dizia, não querem saber dos jogos partidários, se fulano sobe ou desce, se a declaração do dirigente foi assim ou assado, se as taxas de juro oscilam e o défice fica composto. Os jornalistas excitam-se a discutir meia dúzia de palavras, mas isso pouco interessa a quem tenha de pagar contas. É por isso que o comum dos mortais, quando menciona o sistema político-mediático, cada vez mais se refere a ‘eles’ contra nós. Há até políticos que fazem essa mesma distinção em voz alta, dizendo que também não pertencem ao mundo dos que vivem na torre de marfim. Esta classificação da política como coisa alheia entrou no discurso, há mesmo quem não queira saber, quem os deteste por igual. Muitos pensam até que as democracias não têm todas o mesmo valor, há umas melhores do que as outras (a grega, por exemplo, é virtuosa, as restantes são perversas). As instituições democráticas tornaram-se demasiado corriqueiras, impermeáveis à utopia, desiludiram e parecem já não ter muito valor, um dia serão talvez consideradas obsoletas, mas esta é a lógica dos tempos.   

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publicado às 19:17




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