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As engrenagens da insatisfação

por Luís Naves, em 20.06.16

A crise teve um efeito devastador na insatisfação dos eleitores. Nas sucessivas eleições, começa a ser evidente que o eleitorado tem dificuldade na escolha entre diferentes opções e está indignado com as maquinarias políticas e os privilégios das elites. Nos Estados Unidos, os partidos tradicionais foram assaltados por rebeliões eleitorais. O sistema da máquina republicana foi derrotado pela insurreição de Donald Trump e as elites democratas quase soçobraram aos ataques de um populista de esquerda, Bernie Sanders. Na Europa, estamos a assistir a votações com divisões ao meio, entre desafios populistas e sistema tradicional: nas presidenciais austríacas, o candidato da extrema-direita perdeu por 30 mil votos; em Espanha, que vota no domingo, o Podemos de Pablo Iglesias poderá obter um resultado que lhe permitirá formar governo; os populistas estão à beira de vencer a câmara de Roma; e no referendo britânico quem ganhar terá um punhado de votos a mais, insuficiente para o lado que sair derrotado.

Os eleitores andam zangados com a política do costume, mas não querem aventuras, pelo menos não as desejam com convicção. Isso é claro no caso britânico, onde a votação não será sobre a UE, mas sobre questões emocionais de identidade. As pessoas defendem mudanças, mas não querem revolução. Os políticos tornaram-se irritantes e deixou de existir a alternância de antigamente, pois os chefes da oposição têm a mesma carga negativa. O centro entrou em declínio. As pessoas sentem que é necessário fazer alguma coisa, mas ninguém sabe exactamente o quê, embora a ameaça dos partidos extremistas (à direita e à esquerda) não seja a solução viável, pois não passa habitualmente de um quarto a um terço do eleitorado. Os defensores do statu quo e os políticos experientes começam a ter dificuldades em ganhar eleições: a ligação ao poder tornou-se uma desvantagem.

Emerge assim um padrão preocupante na Europa contemporânea: os empobrecidos querem rupturas, os jovens votam ao contrário dos idosos, as mulheres são ligeiramente mais à esquerda que os homens, há fragmentação do eleitorado em grupos complexos e homogéneos. Parece que a sociedade se transforma progressivamente numa auto-estrada com maior número de faixas. Na mais rápida, circulam os beneficiários da nova economia, mas há faixas para funcionários públicos, eleitorados rurais e urbanos, com velocidades diferentes para cada classe social, aliás, velocidades cada vez mais diferentes, a ponto de ser difícil ou quase impossível mudar de faixa. Na zona que devia ser apenas a mais lenta, o trânsito tornou-se infernal e passou a circular-se em contramão. Ali, as coisas estão em declínio e as pessoas sentem-se excluídas, sem emprego ou voz activa. Por isso, cada vez mais os descontentes desprezam as elites que os governam, mostrando sinais de certa raiva, sabendo que, para eles, isto começa a não ter saída.

publicado às 11:43




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