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As bandeiras e as bandeirinhas

por João Villalobos, em 08.04.14

 

No dia 4 de Junho de 2009, despedi-me do blogue colectivo de apoio à candidatura de Paulo Rangel nas anteriores europeias com um último post citando Ralph Waldo Emerson, o qual traduzo agora livremente: “Aqueles que se mantêm afastados das eleições pensam que um voto não mudará para melhor. O que é apenas mais um passo para pensarmos que um voto não mudará para pior”.   

Esse foi um blogue que (pedindo desde já desculpa pela ausência de links) juntou Afonso Azevedo Neves, Ana Margarida Craveiro, António Pinho Cardão, Duarte Calvão, João Gonçalves, José Gomes André, Luís Rocha, Manuel Pinheiro, Maria Isabel Goulão, Maria João Marques, Nuno Gouveia, Paulo Tunhas, Rodrigo Adão Fonseca, Rui Oliveira e Vasco Campilho, entre outros que poderei estar alfabeticamente a esquecer.

Cinco anos depois, a pouco mais de um mês das eleições europeias, afastado da campanha de qualquer coligação ou partido, não consigo objectivamente ver - em qualquer dos lados envolvidos - uma estratégia, uma visão e uma linha de acção capaz de apelar ao voto e motivar os eleitores, em torno das questões que preocupam o eleitorado português no que respeita à nossa relação com a Europa.

Durante anos, Portugal beneficiou em muito mais do que julga e do que foi visível do facto de ter um português como presidente da Comissão Europeia. Em Bruxelas como em Estrasburgo, o exercício do cargo por Durão Barroso permitiu abrir portas, as formais e as informais, no complexo labiríntico que enforma o processo decisório europeu. Esses tempos terminaram e não cabe aqui a análise dos resultados, apenas uma mera constatação pragmática.

Igualmente pragmática é a minha opinião de que a mensagem política principal e motivadora, para o eleitorado nacional nestas eleições - aquela capaz de clarificar, nos seus pressupostos e opções, quais as efectivas consequências para os Portugueses decorrentes da opção de voto.

Comparando a última campanha de Paulo Rangel com a actual, não quero nem posso impedir-me de afirmar que não é o facto de a lista do Partido Socialista ter mais ou menos nomes de anteriores governos despesistas do PS que contará na altura em que as pessoas tiverem que trocar um eventual dia de sol na praia, ou de chuva em casa, por uma ida às urnas. O que conta, e contará sempre, é aquilo que objectivamente for percebido por essas pessoas como capaz de influir no seu dia-a-dia futuro, já de si pessoal e familiarmente perto do ingerível, caótico e socioeconomicamente complexo.

O Português comum – arrisco-me a especular, admitindo-o embora com alguma base em sondagens e informações dispersas - não quer saber de referendar tratados que desconhece e que não são aliás referendáveis ou de saídas do Euro para o regresso a uma moeda que deixou de existir. O que o Português comum quer é perceber se, com o seu voto, colocará nas instâncias europeias uma equipa capaz de garantir que Portugal não cairá na obscuridade e continuará a ser capaz de ter voz nas áreas que são cruciais para o desenvolvimento do País; O mar e as pescas, a agricultura, a criação de empresas e emprego, a educação ou a cultura (e basta olhar neste último caso para o desconhecimento actual sobre os 1,7 Mil Milhões recém-disponibilizados na área das chamadas indústrias criativas)...

Se esta campanha for uma espécie de vale tudo, terá eventualmente audiências. Se for direcionada para a troca de sound bites dirigidos ao umbigo do adversário, terá certamente a alegria dos comentadores políticos. Não terá é votos. 

Ralph Waldo Emerson tinha razão. Mas não basta apelar ao voto dizendo que o não voto tem também o seu efeito. É preciso entender que, para que o voto exista como consequência, são necessárias causas. Se a ideia é que estas eleições sejam ofuscadas pela poeira de cada dia, os partidos podem desde já começar a pensar o que fazer às bandeirinhas que tantas vezes em campanhas são produzidas, na inversa proporção das bandeiras de que se esquecem ou abdicam.

publicado às 15:43




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