Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ao fim da tarde

por Luís Naves, em 11.03.15

A tarde ficou um pouco mais fresca, mas o jardim está cheio de velhos que jogam às cartas, grupos que tomam café nas mesas da esplanada e um ruidoso bando de desocupados a brincar com uma bola azul. A árvore papel, exangue, parece ter sido esfolada por um panda e a figueira-da-Austrália tenta respirar, soçobrando ao peso da gravidade, enquanto algumas das suas raízes avançam um metro do tronco horizontal na direcção do chão, como se estendessem a sua cabeleira. Uma jovem de ombros nus e cabelos castanhos lê um livro, sentada ao sol, e passa outra mulher em sandálias, a passear o cãozinho pela trela. Os bancos estão manchados pelos pombos, que esvoaçam de ramo em ramo, arrulhando boataria. Paira um cheiro a urina, talvez dos cães que também por ali marcam territórios, e há lixos voadores que se prendem às caganitas esquecidas ou às barrigas da calçada irregular, que raízes subterrâneas vão minando. As pessoas andam por ali, num vaivém desencontrado: o sem-abrigo de olhar alcoólico, o senhor com ar sério a comprar cigarros no quiosque paquistanês, um burguês pensativo empunhando o cigarro, um casalito de estudantes que se beija na boca, os dois com aparelho de dentes. Na rua, irrompendo no trânsito, a camioneta de carga falha as mudanças e enrouquece as engrenagens, toda a gente olha, menos os velhotes que festejam a súbita vitória na bisca, a leitora imperturbável, que vira belamente a página, e o pombo encavalitado, claramente a planear um voo rasante. Assim vai o jardim, enquanto a luz da tarde se inclina, banhando o verde com poeira dourada.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:15




Links

Locais Familiares

Alguns blogues anteriores

Boas Leituras