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Antevisão ingénua

por Luís Naves, em 26.02.15

Os habitantes de cada época têm sempre extrema dificuldade em imaginar o que sucederá no seu futuro. Mesmo os visionários não concebem rupturas tecnológicas e devemos pensar nisso quando achamos ingénuas certas antevisões das sociedades de amanhã. Quem quisesse em 1915 imaginar Lisboa cem anos mais tarde pensaria talvez em carroças puxadas a cavalo, senhoras burguesas vestidas com saias longas, cavalheiros de chapéu alto e bengala, camponeses de colete a vender alimentos, frágeis aeroplanos de tela esvoaçando como libélulas, gigantescos couraçados flutuando no Mar da Palha entre mil fragatas à vela, velozes comboios deitando nuvens de fumo e ainda torres de vinte andares, em pedra grossa, tudo iluminado por mais electricidade. O futuro imaginado é cada tempo em exagero. Assim, não escapando à regra de falhar com toda a certeza, posso admitir que Lisboa em 2115 terá ainda mais gente iluminada por electricidade, carros guiados por máquinas falantes cheirando a ozono, aviões supersónicos flutuando no ar como couraçados, torres de vinte andares para absorver nuvens de fumo das fábricas no Mar da Palha, museus e jardins onde se exibem carroças puxadas a cavalo, camponeses a vender livros e outras antiguidades, libélulas mecânicas a transportar alimentos, senhoras burguesas com saias longas e cavalheiros de chapéu alto e bengala, mas conversando entre si numa língua estranha, que incluirá porventura alguma telepatia.

publicado às 19:19




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