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Alguns romances envelhecem mal

por Luís Naves, em 06.03.16

Alguns romances envelhecem mal e parece misteriosa a razão. Outras obras antigas, escritas muito antes das que envelheceram depressa, não ganharam rugas e encantam os leitores de hoje, também por motivos pouco claros. O Homem Disfarçado, romance de Fernando Namora publicado em 1957, talvez esteja a envelhecer mal por descrever um pedaço da sociedade que nos parece estranho. O ambiente do livro é o da medicina hospitalar e das suas rivalidades. O autor faz uma crítica às ambições de um médico, que aparentemente se confundem com a sua indiferença, e o leitor de hoje pergunta-se: qual o problema de querer ser rico? E qual a relação entre ter ambição e ser uma pessoa indiferente? Não será a ambição uma forma perfeitamente legítima de intervir na sociedade? Assim, a obra parece agora excessivamente moralista e não responde a questões que um leitor actual poderá colocar, mas que provavelmente não faziam sentido para o autor.

Publicado em 1903, A Farsa, de Raul Brandão, mantém-se um texto excitante e moderno. A linguagem tem riqueza inesgotável (e, no entanto, o vocabulário está em uso). O tema, as personagens, o ritmo, tudo isso resulta de uma escrita que podia ser de hoje. Embora também tenha uma história moral, o livro de Brandão será agora mais compreensível do que no tempo em que foi publicado, pois o ódio devastador da personagem principal antecipa a loucura do século XX. Tudo ali é doentio e grotesco, destrutivo. A inveja consome as vidas e arrasa tudo à volta, as ambições são mesquinhas e fúteis. Podíamos dizer que no livro de Namora também há uma crítica à inveja, mas se a ambição vem acompanhada da indiferença, a equação deixa de fazer sentido se lhe adicionarmos o invejoso, que nunca é indiferente.

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publicado às 15:30




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