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O contexto das polémicas é relevante para perceber Vergílio Ferreira, mas a sua melhor obra está em romances e ensaios que transcendem a política dos anos 70, explorando temas bem mais vastos, como a dissolução, a liberdade, a paixão e as crenças, o sentido da existência e o império do indivíduo.

Na década de 50, o autor liderou uma ruptura estética, introduzindo o existencialismo e rejeitando a simplicidade dos neo-realistas, o que lhe valeu o desprezo da esquerda radical, que dominava os meios intelectuais. Em Mudança, Cântico Final ou Apelo da Noite, paira o tema da liberdade individual em tempos de transformação; depois, o autor lança-se num ciclo de romances, (Aparição, Estrela Polar e Alegria Breve), onde é marcante a opressão do ambiente capaz de esmagar o homem. Após uma crise artística, o escritor conclui outro trio (Nítido Nulo, Rápida, a Sombra e Signo Sinal), onde discute a aparente impossibilidade de se ser livre, sobretudo num contexto de mudança súbita, por revolução, sismo ou crise interior. O núcleo mais poderoso da obra é concluído a partir dos anos 80, com os romances Para Sempre, Até ao Fim e Em Nome da Terra, onde a dissolução da sociedade, da família e do corpo só deixam espaço para a memória. A inevitabilidade da derrota transforma-se numa busca de sentido para essa derrota.

Com obra tão complexa e rica, muito influente na literatura de hoje, Vergílio Ferreira será certamente lido pelas gerações futuras, mas a sua importância não estará nas polémicas das capelinhas da época, não estará nas discussões dos anos 70 em que as provincianas elites nacionais insistem em permanecer. Vergílio Ferreira rompe a barreira do tempo com romances e ensaios repletos de ideias que provocam o pensamento dos leitores. Para que serve a liberdade? Que limites tem o homem? E que maravilha é esta, de estarmos vivos?

publicado às 11:21




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