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No centenário do nascimento de Vergílio Ferreira deve ser celebrado um dos maiores escritores portugueses do século XX, mas surgem interpretações que reduzem o romancista às polémicas do seu tempo. Uma parte da elite portuguesa ainda vive nos anos 60 e 70, ainda discute os problemas intelectuais dessa época, ainda respeita as capelinhas literárias do passado. Cada artista tem um tempo, mas a redução de alguém às polémicas apenas reduz a dimensão possível da obra. Vergílio Ferreira participou em discussões literárias e escreveu palavras duras sobre alguns contemporâneos; ele era um profundo conhecedor da literatura e tinha ideias fortes sobre o tema.

No seu diário literário, Conta-Corrente, há muitas entradas sobre cultura, há comentários ferozes sobre livros, apreciações críticas, elogios, leituras que amadurecem, opiniões que evoluem, observações cruéis e defesas agressivas de outras obras. O escritor ia fazendo as suas apreciações e escreveu sobre o meio literário, as suas vaidades e ódios. São assim os diários. O leitor percebe que Vergílio Ferreira sentia ter falta de visibilidade. Ele julgava ser (e era) um escritor muito maior do que pensavam os críticos, tendo reunido uma vasta obra de ficção e de ensaio que merecia mais atenção. O escritor pensava pela sua cabeça, não aderiu a grupos, e não concordava com a desordem revolucionária e com a mentalidade colectiva da arte populista ao serviço de um povo mítico.

Mas é só isto o autor? E essa menorização não será uma forma subtil de prolongarmos a condenação à invisibilidade que Vergílio Ferreira sofreu na pele?

publicado às 11:18




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