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Adultério em Moscavide

por Luís Naves, em 26.11.14

Certa crítica de fama afirmava, em pose snobe, que um adultério em Moscavide não era tema da literatura. Parecia esquecer-se que uma das obras-primas da literatura portuguesa conta uma história de adultério no Campo Grande e, sinceramente, não consigo ver a diferença, mas a autora escreveu aquilo com convicção e a frase ficou-me na memória. Lembro-me disto muitas vezes, pois tudo o que é humano pode ser usado. Sem propósito, num canal de TV passa um programa parvo onde surgem dois caramelos que, entre muito lixo, ácaros e poeira, procuram antiguidades nas arrecadações. Chamam-se pickers, ou em português respigadores, pessoas que andam à cata de objectos interessantes, que depois seleccionam da amálgama informe das sobras, enfim, da escória da civilização. Sempre atentas à história dos objectos, estas formiguinhas excitam-se imenso com as porcarias que encontram e que, sem excepção, transformam em negócios. Pois, tirando a parte do dinheiro, a literatura não devia ser diferente: no imenso monturo a que, no final, se resumem as nossas vidas, procuramos pequenos objectos, que salvamos da poeira e do esquecimento, por causa de um brilho que só nós vemos. Um adultério em Moscavide? Como pode isso ser desinteressante?

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publicado às 18:38




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