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Acordês

por Luís Naves, em 24.10.15

A indignação com o acordo ortográfico tem momentos que lembram os debates sobre bola que tomaram conta das televisões e cuja agressividade é já quase cómica, de tão artificial. Algumas pessoas dizem que deixaram de ler literatura e não compram livros ou revistas que usem o chamado 'acordês'. Escrevo geralmente na ortografia antiga, que conheço melhor, mas isso não me parece importante para a escrita: tenho a sorte de compreender obras de ficção em várias línguas e nunca me incomodou a ortografia de cada uma delas. Já li brasileiros publicados na ortografia original, o que nunca me incomodou. Leio sem dificuldade jornais estrangeiros, brasileiros ou escritos em 'acordês', algo em que deixo de reparar ao fim de cinco minutos.

A questão, naturalmente, não está na ortografia, mas no conteúdo e na qualidade da escrita. Quando falamos de literatura, a questão está na densidade do texto e das personagens, na forma e originalidade, no fluxo, na riqueza do vocabulário, nos cenários, no estilo, na intensidade poética, na fantasia, nas emoções e na sinceridade do autor. Isso é que é literatura, mesmo se estiver escrita numa convenção que nos desagrada, sendo a boa literatura sempre superior à própria língua em que foi escrita, ao tempo e à sociedade da sua escrita, mais interessante do que o próprio autor que a escreveu. A arte original tem ritmos próprios, profundidade, superação do tempo, universalidade, funciona em qualquer língua e em regras codificadas que, lidas em cada dia, se tornam invisíveis.

publicado às 12:28




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