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A verdadeira crise

por Luís Naves, em 02.04.14

Parte da sociedade portuguesa vive numa espécie de estado de choque feito de hipocrisia e negação. O País mediático recusa-se a discutir o essencial e entrou num processo de recusa sistemática da realidade. A impunidade é a regra geral e quando um jornalista faz perguntas isso equivale a uma emboscada. Muitos dos responsáveis pela situação em que nos encontramos são agora intocáveis líderes da opinião.
Estamos a dois meses do fim do programa de ajustamento e não sabemos o que nos exigem no pós-troika. A discussão é tabu. Estamos a dois meses de eleições europeias e não há um único debate sobre Europa; ninguém menciona as mudanças em curso e que teremos de acompanhar. Só se fala de fantasias, por exemplo, sobre os futuros mecanismos de mutualização de dívida que não vão existir, pois precisariam de alterações de tratado ou da improvável aceitação eleitoral nos países credores.


A ideia de restruturação da dívida é um exemplo de discussão lateral. Ela visa condicionar as eleições europeias e embaraçar os partidos, impedindo uma eventual vitória clara de António José Seguro e um resultado razoável da direita. É preciso que ambos percam em grande, para que as reformas possam parar. Há forças políticas que, não podendo derrubar o governo, querem que o pós-troika seja um regresso ao passado. E, no entanto, para que o País possa cumprir o Tratado Orçamental, será necessário continuar a agenda reformista e cortar mais 5 ou 6 mil milhões de euros na despesa pública, ao longo dos próximos três anos. Isto exige alterações Constitucionais e um acordo entre os maiores partidos, sendo a alternativa, a prazo, a saída da zona euro. Ou seja, o pós-troika implica manter o rigor orçamental, sem fazer cedências ao populismo ou à fantasia.
A economia começa a dar sinais de recuperação, mas a comunicação social dedica grande parte do seu tempo a tentar negar este facto. Durante três anos foi recusada a inevitabilidade do resgate e ignorada a própria situação de falência: o País estava condenado à espiral recessiva, à insurreição, ao empobrecimento radical, ao segundo resgate e ao diabo a quatro. Nada disto se concretizou.
Enfim, a estratégia alemã na crise das dívidas soberanas deu resultado, mas o noticiário é apenas anti-alemão e transmite a imagem falsa de uma Europa à beira do colapso. Portugal terá de concluir a reforma do Estado, sobretudo da segurança social, e isso implica um acordo alargado entre partidos, mas a discussão encontra-se bloqueada. Fala-se apenas do acessório e não admira que as pessoas, tomadas por tolas, deixem de ler jornais ou de ver noticiários. 
 

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publicado às 10:49




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