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A velatura da solidão e do medo

por Luís Naves, em 29.03.14

A minha crise vai muito além de pormenores de contabilidade, temo que vá mais fundo, até à frustração íntima de não conhecer as palavras certas para descrever o que vejo e pensar o que sinto. Como é a frase de S. Paulo sobre a confusão nos homens? “Não consigo entender nem mesmo o que faço; pois não faço aquilo que quero, mas aquilo que mais detesto”*.

É demasiado ténue a linha que separa a doença da nossa normalidade e assim vivemos, doentes na normalidade, cada um igual aos restantes, neste limite indefinido onde o que parece sensato pode ser simples loucura e onde a mentira parece verdadeira e onde o que se disse ontem não passava de transitório, daí que quando procuro palavras e elas me escapam (aquele título de filme, escrito no vento) é como se habitasse uma espécie de loucura, embora nunca tenha estado louco e não possa saber ao certo se é tal como imagino, enfim alguém que perdeu a razão não o pode saber, e assim ocorre com o mundo à nossa volta, as pessoas já não têm tempo para pensar, aceleram na angústia do encurtamento do tempo, esbarram com outras enquanto falam ao telemóvel com pessoas terceiras, não vêem uma nem outra, nem a pessoa em frente, com quem chocam, nem a do lado de lá da realidade, e assim é com o resto, aquilo que está além do imediatamente visível e da atenção focada no mínimo de superfície, portanto, tudo o resto que pode ser enjeitado, tudo o que é inútil e descartável, como acontece com as pessoas hoje em dia, aquelas com quem chocamos na boca do metro por irmos entretidos no nosso íntimo mundo, ao qual também não damos qualquer atenção, como atenção nenhuma demos a tudo aquilo que esmagámos com o nosso passo desatento.
O computador onde escrevo está enlouquecido, infectado por mil viroses que lhe retiraram o brilho e o fazem soprar de cansaço e tremer de medo, numa lentidão que lhe anuncia a morte e a de tantas outras coisas no universo. A medo, alinho umas palavras como se fossem pedacinhos de tinta que um pintor tímido colocou sobre um desenho. E a luz foge e a realidade muda depressa. Insatisfeito, tento pintar por cima e apagar os erros vagos, de ritmo, estrutura e luminosidade, e a imagem torna-se confusa e castanha, pois que misturando todas as cores dá uma cor, quando a luz que resulta da mesma mistura de luzes é branca, e da mesma forma a existência humana, que é corpórea, se afasta da luz, imitando a amálgama de pigmentos que resulta numa cor uniforme, debaixo de uma velatura, ou seja, das contradições invisíveis debaixo da camada de solidão que destapa tudo o que queremos esconder.
Sim, a minha crise vai mais fundo, pois tem a ver com a mentira da negação e a autenticidade do medo, a negação da mentira e o medo da autenticidade, e por aí fora.

 

*Rm 7,14

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publicado às 20:56




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