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A tinta que secou no papel

por Luís Naves, em 16.01.15

Pego em apontamentos que escrevi freneticamente quando me ocorreu uma ideia súbita e nítida. Está escrito, numa letra quase ilegível, que as pessoas estarão insatisfeitas e inseguras, que serão mais exigentes com a política e que esta terá ciclos mais curtos, menor tolerância e maior disposição para restringir as liberdades. Só falta o quando. Que queria dizer, exactamente? Até este ponto, parece mais ou menos compreensível; depois, há palavras com símbolos, a sugerir que o liberalismo entrou em crise, que a identidade nacional tende a reforçar-se. Finalmente, a parte que não entendo: a sequência ordem, desordem, caos. Na ordem, há o homem subjugado que procura o seu destino; depois, na desordem, o homem libertado que falha no seu destino; e finalmente, no caos, o homem manipulado e sem destino.

A página seguinte do bloco de apontamentos já não faz qualquer sentido. Há desenhos incoerentes, a sugerir que a minha mente flutuou no mero acaso, depois alguns gráficos, por exemplo, o gráfico da opressão, que parece uma banheira, depois o da riqueza, sempre a subir, o da liberdade, igual a um acento circunflexo. Mais atrás, nos gatafunhos confusos que ali deixei, parece haver uma pequena reflexão sobre o mundo, com (e cito) a sua histeria, o excesso, os gestos grandes, palavroso e berrante, fragmentado, envelhecido e cheio de medo. E é tudo. Nada que se aproveite. O resto dos apontamentos não passa de um conjunto de riscos numa folha, de frases sem contexto, palavras soltas e desenhos em forma de caricatura. As ideias perderam-se ao chegar à caneta e a tinta secou no papel, depois de deslizar brevemente.

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publicado às 11:22




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