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A Revolução Russa

por Luís Naves, em 02.02.18

Leitura fascinante do livro de Orlando Figes sobre a revolução russa, Tragédia de Um Povo, onde se mostram os efeitos cruéis de uma sociedade em colapso, refém da loucura de uma pequena minoria mobilizada. A leitura coloca problemas difíceis: que mundo produziu alucinados como Lenine? Será possível que estas derrocadas se repitam? Será a vertigem pelo totalitarismo assim tão invulgar? O facto é que a história desta revolução, pelo menos na sua fase mais absurda (entre Fevereiro e Outubro de 1917) é também uma lista de pequenos episódios em que um detalhe minúsculo, resultando de outra forma, alterava toda a sequência. Os bolcheviques podiam ter sido esmagados, absorvidos por outras forças, obrigados a partilhar o poder. Os monárquicos tiveram pelo menos uma oportunidade para tomar as rédeas da situação e todos os partidos subestimaram os adversários mais perigosos, preferindo a inacção face aos comunistas, em vez do apoio a alguém moderado. Se o golpe de Outubro tivesse sido adiado por apenas alguns dias, Lenine teria provavelmente sido suplantado por Kamenev e Zinoviev (as duas futuras vítimas prioritárias de Estaline) e embora o regime comunista pudesse ter existido, a sua natureza teria sido provavelmente menos brutal. Da parte dos socialistas e dos partidos burgueses, houve traições, mal-entendidos, hesitações fatais, cobardia, erros, simples estupidez. Lenine triunfou porque Kerensky era fraco, iludido ou medroso. Os bolcheviques foram um pouco mais disciplinados e não tiveram escrúpulos em usar a brutalidade e a demagogia contra todos os outros. A violência foi aplicada sem limitações, pois Lenine desejava a guerra civil, mecanismo que facilitava a implantação do seu modelo de sociedade, uma visão fanática e totalitária do exercício do poder. O que mais espanta nesta história é a ingenuidade, fraqueza ou impotência de tantos políticos profissionais, a ilusão em que caíram as massas e a fácil manipulação dessa credulidade popular, que foi aliás um processo quase de substituição religiosa. A revolução russa foi um gigantesco suicídio colectivo e, sabendo-se que a inteligência das pessoas não mudou em cem anos, é impossível não ter dúvidas sobre a estabilidade das actuais estruturas políticas: serão tão sólidas como parecem?

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publicado às 18:58




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