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A rebelião

por Luís Naves, em 06.01.15

O eleitorado europeu está farto de medidas que não compreende, de liberalizações que prejudicam os trabalhadores, de cortes nos serviços públicos, de desemprego e estagnação. Quem tinha vidas previsíveis observa agora o horizonte da incerteza. A grande crise aumentou a angústia na opinião pública, criando um estado de pessimismo e de insegurança que os meios de comunicação exploram com misérias sociais que, existindo antes da crise, nunca antes tinham merecido tanto relevo. As percepções de corrupção, de criminalidade ou de pobreza são muito maiores do que a realidade da corrupção, da criminalidade ou da pobreza. A frustração, muito visível em países resgatados, não tem saídas fáceis: o Syriza, na Grécia, está a duas semanas de vencer as eleições e pretende renegociar a sua dívida e aumentar a despesa pública, com dinheiro que o país não possui: nos últimos anos, entre ajuda externa directa e perdão de créditos, a Grécia recebeu 380 mil milhões de euros, sempre a agravar a situação, devido à relutância em cumprir as condições do ajustamento. É uma ilusão pensar que a Europa pagará as contas indefinidamente ou que as dívidas podem ser perdoadas sem a perda definitiva da credibilidade externa. Na Alemanha, entretanto, fervilha um movimento espontâneo anti-imigração, o Pegida, que está a assustar a classe política alemã. Os manifestantes, pessoas comuns, são apresentados como xenófobos e racistas, o que apenas aumenta a sua irritação com uma democracia que, à partida, pretende ignorar a sua voz. Os partidos tradicionais têm dificuldade em lidar com formas de protesto que surgem fora do respectivo controlo, como aliás acontece na França, Espanha, Itália ou Reino Unido. Os populistas de esquerda e da direita proliferam no terreno fértil do cansaço e a ansiedade dos eleitores torna difícil manter as reformas económicas de inspiração liberal, cujo fracasso político é cada vez mais evidente. Assim, 2015 será talvez o ano da rebelião populista.

publicado às 13:05




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