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A raiz do pessimismo

por Luís Naves, em 24.05.14

Um homem que vivesse antes de 1900 pensaria facilmente na sua morte, mas teria lentidão em imaginar a extinção da humanidade. E no entanto, para nós, que vivemos numa era moderna supostamente de grande progresso, a ideia da extinção é quase imediata. Já a vimos em filmes populares e grafismos de televisão, já a vimos aliás mil vezes, o asteróide assassino, a guerra nuclear, passando por toda a espécie de calamidades galácticas. É também curioso verificar que a ideia da extinção global é sobretudo acessível aos afortunados que habitam nos países desenvolvidos.

E, no entanto, por paradoxal que pareça, nunca os seres humanos estiveram tão ao abrigo das doenças e em pensamento tão perto delas, nunca viveram tão seguros e com tanto medo, nunca foram tão ricos e tão ansiosos com a pobreza. Habitamos ambientes assépticos, com nojo da sujidade, sobretudo a humana. Temos receio da mudança, mas não nos surpreendemos com coisa alguma, pois fomos expostos a tudo, pelo menos vimos ou acreditamos ter visto tudo o que existe, havendo crescente dissociação entre o ver e o sentir.

O mundo contemporâneo parece basear-se na ansiedade permanente em relação ao eu. Ninguém se pode sentir bem na sua pele com a obsessão geral de que é preciso ser mais belo e mais jovem e mais rico e mais inteligente e ainda mais elegante e mais sofisticado e mais tudo. Somos constantemente bombardeados por desejos que não podemos concretizar e cada pessoa sonha intensamente em sair de si própria. Assim, a raiz da insatisfação moderna pode estar na forma como nos habituámos a olhar sobretudo para as imperfeições. A sociedade e a cultura são pinturas exageradas das nossas vidas. E, sendo o mundo cada vez mais complexo, queremos tudo simplificado, queremos poder pensar o menos possível, pois já não temos tempo, a mente ocupada com as catástrofes iminentes que o acaso plantou no nosso caminho. E assim estamos quando os prazeres não nos anestesiam.

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publicado às 18:42


1 comentário

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De AEfetivamente a 04.07.2014 às 21:22

Um magnífico texto que destacarei no AEfetivamente assim que possa.

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