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A queda

por Luís Naves, em 18.04.16

Depois da estrondosa derrota na câmara dos deputados, Dilma Rousseff terá escassas hipóteses de impedir o processo de destituição; mesmo que consiga manter-se no poder, a presidente brasileira não tem condições para governar até ao fim do mandato. Estranho ‘golpe’: três em cada quatro deputados votaram a favor do derrube da presidente. A coligação que apoiava Dilma está desfeita e o descontentamento popular não permitiria mais dois anos e meio de pântano. O Brasil precisa de mudança, como disseram muitos dos deputados que votaram pela destituição na caótica, democrática e por vezes divertida sessão de voto de ontem (hoje de madrugada), que lembrava um jogo de futebol a terminar em penaltis.

Na imprensa brasileira escreve-se que Dilma e o PT cometeram erros tremendos, sobretudo ao longo do último ano e na campanha do segundo mandato (com vitória por pequena margem); a presidente hostilizou dirigentes dos partidos que a apoiavam, foi arrogante e queimou pontes, mas acima de tudo cometeu erros que acentuaram a recessão: o Brasil deverá perder 8% a 10% do PIB, o desemprego aumenta depressa, espera-se a recuperação apenas em 2018. Em Portugal, vemos notícias muito editadas, onde os apoiantes de Dilma parecem sempre melhor do que “as tias” que querem a destituição. Trata-se de uma fantasia, claro. O descontentamento popular é evidente, como foi óbvia a influência das manifestações de rua na escolha de muitos deputados. Se o avanço do processo fosse contra o desejo do povo, não tinha acontecido.

O PT está metido até ao pescoço num escândalo de corrupção sem precedentes e tentou obstruir a investigação judicial. Este partido também tentou criar um regime clientelar que se notou nas divisões da votação por estados: nos partidos divididos, os deputados das regiões ricas votavam contra Dilma e os das regiões pobres a favor. O país está partido entre Norte e Sul. Na câmara, notavam-se as classes sociais, a questão racial, o voto evangélico contra Dilma, as fracturas partidárias, o caciquismo e o desespero dos deputados do PT. A crispação política parece ter ultrapassado um nível perigoso e as elites brasileiras não parecem à altura da crise. O sistema presidencial dificulta a válvula de escape de eleições antecipadas, o sistema eleitoral permite eleger deputados (geralmente chefes políticos locais) por algumas centenas de votos, o vice-presidente Michel Temer é também impopular, acusado de golpista pelos derrotados, os problemas económicos exigem medidas urgentes, mas o Brasil é demasiado grande para falhar.

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publicado às 18:32




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