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A mais bela obra de ficção que li sobre os efeitos da Segunda Guerra Mundial na sociedade russa é um conto chamado O Regresso, escrito por um autor obscuro, Andrei Platonov, que viveu grande parte da sua curta vida sob o terror de ser preso a qualquer momento pela polícia política. A última página do conto está entre os textos mais comoventes que conheço em literatura, com a imagem daquelas crianças em desespero a correrem atrás do comboio que lhes leva o pai. Prefiro esta versão da Grande Guerra Patriótica à versão de Vladimir Putin, com a sua paranóia megalómana, os desfiles de novos brinquedos militares e as paradas de soldadinhos de chumbo. Prefiro a Rússia de Platonov e a de Vassili Grossman e também a de Mikhail Bulgakov, a Rússia triturada dos prisioneiros de Kolimá, de Varlam Chalamov, gosto da Rússia trágica de Ana Karenina contada por Tolstoi, gosto muito da serenidade da Rússia de Tchékhov, gosto da resistência de Ivan Denisovitch contada por Solzhenitsyn e tenho pena que hoje só tenhamos ouvido a Rússia das botas regimentais do imitador do império dos czares. São bem mais verdadeiras aquelas duas crianças de ficção que correm atrás de um comboio com as suas almas despidas, a verdade do amor toda exposta.

publicado às 19:59




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