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A memória escorre aos soluços

por Luís Naves, em 25.05.16

Lembro-me de um mundo imóvel e em película, onde explodem cores deslumbrantes que devem pertencer às minhas recordações verdadeiras. As viaturas eram estranhas, as estradas estreitas e esburacadas, as roupas e os penteados tinham formas bizarras. Os prédios eram mais altos, pareciam gigantescos a uma memória infantil como a minha, mas pensando bem eram demasiado amplos para a pouca gente que os habitava. E havia enormes cidadelas grotescas à sua volta, bairros inteiros de casario improvisado a zinco e tábuas, com as ruas cheias de uma água barrenta, que não posso ter visto ou cheirado como exactamente me lembro delas. O céu desse tempo era igualmente azul, mas só o recordo por o saber igual ao de hoje; as plantas também estavam quietas e verdes; o mesmo sol realçava as cores da praia e do mar, que o calor encheu de neblina suave, que é o véu do passado. As pessoas, essas, eram diferentes, tinham outros pensamentos, eram de paixões contidas e poucas falas, inchadas do que não diziam. Lembro-me da chuva que batia na vidraça e isso era igual ao que sinto hoje em dia, a mesma sensação de tempo a escorrer em gotas descendentes, que se juntam a outras gotas, formando pequenos ribeiros verticais no vidro frio. Lembro-me das mansas carroças da aldeia, dos sufocantes campos de milho e do zumbido dos candeeiros a petróleo, do café da manhã, da lareira e dos lençóis de linho cheirando a detergente rústico, do bácoro que atormentei, de um curioso telefone antigo que tinha manivela, mas depois talvez não fosse bem assim, lembro-me do cheiro dos jornais, das sombras fantasmagóricas da televisão a preto e branco, dos programas de rádio que toda a gente ouvia, da cor espantosa de um filme da disney, dos meninos a fugir do polícia gordo, da figueira do meu avô, dos cromos e berlindes, do barulho da ventania nos pinheiros e que era parecido com o mar atrás da falésia, da escola muito velhinha a cair de podre, mesmo ao lado do aqueduto, e da ardósia que era do mesmo tamanho de um i-pad, lembro-me do frigorífico novo e da sopa de feijões, das conversas sussurradas sobre coisas de que não se podia falar, a rádio tirana de ondas curtas, por exemplo, lembro-me da biblioteca da vila que ficava no topo de uma alameda com grandes plátanos, o sino da igreja e a satisfação do padre à porta, o café onde não entravam mulheres sérias, lembro-me dos subúrbios sem alma da capital, do comboio atulhado, nas portas abertas cachos de viajantes pendurados, lembro-me da falta de água, das pessoas que se queixavam dos preços, dos camponeses e das vendas de melões que eram paragem obrigatória, das filas da gasolina, das coisas atrevidas que de repente eram permitidas, e não esquecerei a fotografia de certo filme de Fellini, lembro-me da febre da política, dos novos sussurros e mudanças de tema, dos cortes de electricidade e lembro-me também daqueles carros, agora antiquados, de que sabia o nome dos modelos, do aeroporto que tinha uma varanda para ver partir aviões, do cinema a que chamavam piolho, da escola com barracões cinzentos, dos olhos da professora que mudou de tema por ter medo dos alunos, lembro-me da mulher que se matou na linha do comboio, das notas de escudo e dos livrinhos baratos, de como as aldeias estavam a morrer e o mundo a mudar, lembro-me das estradas de macadame, das histórias dos astronautas que caminhavam na Lua redonda que estava ali em cima no céu nocturno, brilhante, lembro-me de tudo isso, um pouco confusamente talvez, amontoando-se em imagens, algumas delas incertas, outras nítidas, que o meu olhar e a minha memória retiraram do mundo apressado, como quem guardava partículas de poeira.

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publicado às 11:18




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