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A irresistível força dos mitos

por Luís Naves, em 06.04.14

Não queria escrever sobre a Hungria, por achar que não vale a pena tentar combater mitos tantas vezes repetidos, mas fiquei perplexo ao ler no Público uma notícia sobre as eleições legislativas húngaras, ainda por cima sendo o texto escrito por uma boa jornalista. O que se passa com o jornalismo português? A que se deve esta superficialidade militante? Pensei em escrever um comentário no jornal online, mas não consegui. Também não posso colocar aqu o link para o artigo, mas julgo que ele merece uma crítica.
O que me espanta não é apenas a repetição de banalidades que podemos encontrar em maus textos de opinião, mas erros factuais numa notícia. Por exemplo, devido a embirrações pessoais, o LMP (É Possível Outra Política) não integra a coligação de esquerda, que tem cinco formações, incluindo um partido liberal com sigla parecida. O LMP concorre sozinho e pode atingir os 5% mínimos para entrar no parlamento. Convém explicar que Gordon Bajnai não é centrista, mas tal como é dito liderou o último governo socialista; e convém lembrar que os socialistas perderam em 2010 por causa da corrupção e da falência do país e do FMI e da austeridade. E também da repressão de manifestações (mas, ao contrário do que é dito, estas eram pacíficas).
Quando os mitos são mais fortes, publique-se o mito. No caso da Hungria, torna-se impossível compreender as razões de um voto tão esmagador num partido, o Fidesz, que integra o PPE, sendo portanto parceiro do PSD e do CDS a nível europeu. Não se trata, pois, de uma qualquer formação extremista ou alucinada. Tem defeitos? É evidente, mas falem deles.

 

Pondo alguma ordem neste texto, é preciso explicar que o Fidesz (direita) ganha as eleições de hoje por larga margem porque o primeiro-ministro Viktor Orban é genuinamente popular e carismático. Combateu a corrupção e pagou a crise esfolando os bancos e as rendas excessivas, ao mesmo tempo que aumentava os salários dos professores e fazia reformas estruturais como provavelmente nenhum outro país europeu conseguiu fazer. Manteve o défice nos 3%, em vez de continuar a consolidação orçamental; baixou impostos, conseguindo mesmo assim excedentes primários e balança de bens e serviços altamente positiva. A alteração da Constituição foi radical e, de facto, houve vários conflitos com a UE sobre legislação considerada incompatível com o Direito comunitário, tendo o governo húngaro alterado todas as leis que, no âmbito da sua missão de guardiã dos tratados, a Comissão Europeia contestou.

  

É preciso compreender os motivos profundos que levam a esquerda a perder estas eleições. A União, coligação de esquerda, parece a muitos eleitores mais do mesmo, pois integra algumas das figuras que provocaram o colapso financeiro, Ferenc Gyurcsány, por exemplo, cuja inclusão provocou uma queda nas sondagens, queda essa que foi acentuada após a divulgação de um escândalo de fuga aos impostos de outra alta figura do Partido Socialista.
Estas eleições não se entendem sem levar em consideração a importância da mitologia de 1956 no imaginário colectivo e a forma como as interferências da União Europeia (nomeadamente o relatório de Rui Tavares) irritaram a opinião pública e tiveram o efeito inverso ao pretendido, pois estamos a falar de um país com forte identidade, suficiente auto-estima e um curioso sentimento de insegurança nacional.
É preciso compreender que a banca está em mãos estrangeiras e que a transição e as privatizações foram essencialmente corruptas; que a política é crispada, com uma poderosa divisão na sociedade: há a corrente anti-comunista e outra que no fundo tem a herança do antigo regime, que não era assim tão impopular. Por favor, leiam a literatura deles.
É preciso também compreender que a transição entrou numa nova fase. Na Polónia, ela começou em 2006, na Hungria em 2010. Antes disso, o regime comunista sobreviveu parcialmente e tinha certa inércia na burocracia estatal. A direita democrática, quando subia ao poder, mantinha sempre um controlo limitado sobre os acontecimentos. Assim, durante a transição, os antigos comunistas e respectivas famílias beneficiaram das privatizações e, em certos casos, tornaram-se milionários. A direita foi acumulando ressentimentos, até afastar completamente a esquerda pós-comunista. Por isso, esta nova fase, vista da Europa ocidental, parece ser tão autoritária. Poderei estar a especular, mas julgo que a circunstância de não ter havido um poder mais revanchista nestes quatro anos ajuda a explicar a votação elevada da extrema-direita; parece existir igualmente um paradoxal fenómeno de transferência de votos directamente da esquerda para a extrema-direita (não li ainda nenhuma explicação convincente, se é que o efeito se confirma).

 

A catástrofe da esquerda não tem nada a ver com o sistema eleitoral. Em vez de demonizarem a eleição e passarem um atestado de imbecilidade aos eleitores, os jornalistas deviam tentar compreender o que foi feito e poderiam até concluir que Portugal beneficiava de uma lei eleitoral semelhante à húngara. O número de deputados foi reduzido de 386 para 199, com 106 círculos uninominais maiores e que tiveram de ser redesenhados, como é óbvio; a votação passa a ter apenas uma volta (à maneira americana). Depois, há a lista nacional escolhida por método de Hondt; as diferenças de número de eleitores entre círculos foram esbatidas em relação ao desenho anterior; há igualmente distribuição de votos não utilizados, o que beneficia os pequenos partidos na lista nacional; e o sistema privilegia coligações, tendendo para a bipolarização; a nova lei eleitoral traduz a vontade do eleitorado e não beneficia o Fidesz, mas sim os dois maiores partidos. O objectivo do primeiro-ministro, sem ingenuidades, era prejudicar o Jobbik. Aparentemente, a coisa saiu-lhe ao contrário.


Este sistema também explica a lógica da coligação de esquerda, mas a rejeição eleitoral das lideranças contaminadas pelo colapso económico de 2008 é de tal ordem, que a coligação pode ficar em terceiro lugar, e esta é a má notícia. O Fidesz sai beneficiado porque conseguiu dar a volta à economia; a União é penalizada por não ter feito a limpeza de políticos impopulares; o grande beneficiário é o Jobbik, a formação da extrema-direita, sobre a qual não me pronuncio muito, por não a compreender.

Este partido ameaça ter mais de 20% e, embora não chegue ao poder, será nos próximos quatro anos o maior problema para a direita conservadora. O Jobbik é uma formação tóxica, anti-cigana e anti-semita, que possuía uma franja lunática e paramilitar que entretanto se separou do grupo principal. Neste momento, o partido pode talvez ser comparado ao FPO austríaco e vai certamente eleger eurodeputados em Maio. Na Der Spiegel pode ser lida uma história muito interessante sobre um antigo dirigente da extrema-direita, também reveladora dos problemas desta sociedade e dos pesados fardos históricos que ela carrega.
Uma última nota para a liberdade de imprensa. Na Hungria, onde existe excesso de memória histórica recente, as pessoas lembram-se do sufoco anterior a 1989. Curiosamente, hoje o jornal mais lido é da oposição, um título antigo, que funcionou como órgão oficial do partido único durante a ditadura comunista e que agora é um excelente jornal de um país onde as pessoas gostam de ler. Sim, a realidade é sempre um pouco mais complexa.
 
Em relação ao futuro, muito depende da dimensão da maioria e da evolução económica. Uma maioria constitucional para o Fidesz poderá originar o terramoto de que a esquerda húngara necessita para se transformar numa esquerda normal. Se os resultados económicos se mantiverem, talvez o sistema evolua para uma polarização entre esquerda e direita, com o desaparecimento progressivo do Jobbik. Uma maioria apenas absoluta vai certamente tornar o Fidesz mais normal no contexto europeu, mas também dará algum peso à extrema-direita, sobretudo se esta ficar em segundo e liderar a oposição ao governo.
A Hungria está entretanto a sair da crise profunda que atravessou durante seis anos, muito mais dura do que a nossa, e mostra sinais de crescente competitividade, com impressionante redução do desemprego. As políticas económicas heterodoxas de Viktor Orban (que a esquerda ocidental devia elogiar pois eram contrárias às recomendações do FMI) deram resultado e o Fidesz será ainda mais difícil de derrotar daqui a quatro anos.

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publicado às 13:20


1 comentário

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De Miguel Madeira a 07.04.2014 às 15:59

Uma resposta:

http://viasfacto.blogspot.pt/2014/04/a-lei-eleitoral-hungara.html

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