Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




A grande circulação do destino

por Luís Naves, em 20.02.15

Cheguei ali por acidente. Lembrava-me de alguns farrapos desta história, lida provavelmente no centenário dos acontecimentos, e consegui encontrar referências que permitem reconstruir mais detalhes deste episódio emblemático do início da Primeira Guerra Mundial. Na noite de 31 de Julho de 1914, em Paris, o estudante fracassado Raoul Villain atingiu a tiro um famoso político socialista, Jean Jaurés, que se opunha ao conflito iminente e que, em vão, tentava convencer a França a não combater. Na realidade, Jean Jaurés tinha poucas hipóteses de ser bem sucedido, mas nunca saberemos se a sua morte ajudou a precipitar a chacina europeia. Ele foi morto com uma bala na cabeça três dias antes da declaração de guerra, quando comia pacatamente no Café des Croissants, em Montmartre. Villain (o nome já é fantástico) passou cinco anos na prisão e acabou por ser absolvido, num julgamento extraordinário onde se considerou que o tiro fatal fora disparado por “amor da França”. A viúva de Jaurés teve de pagar os custos do processo, pormenor macabro de uma história que quase parece improvável.

Depois de libertado, Villain tentou viajar para o Taiti, na Polinésia Francesa, mas acabou por se instalar em Ibiza, onde era conhecido como “o maluco do porto”, devido às suas excentricidades e à estranha casa que mandara construir com o dinheiro de uma herança. Em 1936, a Guerra Civil de Espanha foi ter com ele. Preso por uma coluna de anarquistas que ocupou Ibiza, foi fuzilado após um ataque da aviação italiana. O resto do relato li num jornal espanhol, segundo o qual os assassinos de Villain sabiam quem ele era. Estavam, pois, a vingar Jaurés. O artigo francês tem dúvidas, mas aqui fica este terrorista do seu tempo e uma pequena reflexão sobre os acasos que comandam a vida, os acidentes da História e a grande circulação do destino.

publicado às 23:25




Links

Locais Familiares

Alguns blogues anteriores

Boas Leituras