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A classe média

por Luís Naves, em 10.02.15

A política tornou-se pós-ideológica, baseando-se na criação de consensos que satisfazem a classe média dominante. Os membros desta classe média têm um grau de alfabetização elevadíssimo e acesso quase universal à informação, mas uma torrente de dados sem relevância assegura o desinteresse da maioria. Para mais, os meios de comunicação adquiriram o gosto da trivialidade e dedicam a maior parte do seu esforço a histórias cujo critério de escolha é serem ‘giras’. As pessoas normais não gostam dos conflitos demasiado próximos e a violência é geralmente um espectáculo distante, que acontece aos outros de forma aleatória. Talvez esta circunstância ajude a explicar o impacto do terrorismo, sobretudo quando este se dedica a praticar atrocidades que abalam a confiança que temos na continuidade do conforto das nossas vidas. Assim, as pessoas normais querem narrativas previsíveis, que não as incomodem; não se importam de discutir temas alheios, como consumo de drogas leves ou matrimónio de casais do mesmo sexo, mas os assuntos complexos que tocam na sua própria realidade são sempre desagradáveis. As instituições do mundo contemporâneo tornaram-se fortes e sólidas, mas também é mais audível o rumor do descontentamento, mistura de ansiedade económica e medo de envelhecer. Os valores e as tradições perdem-se na grande mudança, o passado tornou-se um mito. Reina a busca impaciente do prazer e as pessoas, que nunca foram tão ricas, sentem uma insatisfação imprecisa que não tem onde se agarrar, pois já não há ideologias a cativar a imaginação, apenas herdeiros de revoluções fracassadas e velhas religiões a cheirar a flores mortas.

publicado às 20:20




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