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A camada de civilização

por Luís Naves, em 24.02.15

Por qualquer razão, comecei a pensar neste conto, Lot, e não sabia onde o podia encontrar ou o nome do autor. Tinha a ideia de ter escrito sobre ele e foi por acaso que encontrei um post antigo onde estava o link. É um dos textos mais poderosos que conheço com tema pós-apocalíptico. O autor, Ward Moore, obscuro jornalista de esquerda e escritor de ficção científica com biografia cheia de peripécias, tem aqui uma obra-prima que, infelizmente, não lhe deu fama. Continuo sem saber em que livro encontrei pela primeira vez este conto brilhante, mas pouco interessa. Moore imagina uma ameaça (talvez uma guerra nuclear) e um homem banal que tem um plano de sobrevivência melhor do que o dos vizinhos. O ritmo da escrita é alucinante e vemos a transformação da personagem, os cálculos cada vez mais impiedosos e mesquinhos, a agressividade crescente na luta pelo objectivo e na conclusão de tarefas planeadas que asseguram a fuga eficaz. O lado selvagem e primitivo da Humanidade não passa de uma camada cuidadosamente oculta, que reage às circunstâncias adequadas.

O mesmo tema da cruel competição humana é explorado num conto de Dezso Kosztolanyi, que encontrei numa velha antologia de contos húngaros. Este poeta e contista, porventura o melhor escritor húngaro, tem um dos seus romances traduzido em português, o genial Cotovia. O conto O Meu Caminho é muito simples: um homem sobe para um eléctrico apinhado de gente e, lentamente, por intermédio de pequenas batalhas, vai conquistando um lugar cada vez mais confortável, perdendo toda a crosta de civilização, até obter, no fim da viagem, um lugar sentado que lhe dá uma imensa sensação de triunfo: “Contemplava os botões arrancados do sobretudo como um combatente as suas feridas. Toda a gente passará, pensava com bom senso: basta saber esperar. Não se alcança facilmente na Terra a recompensa a que se tem direito, mas ela acaba por nos cair nas mãos”. Isto terá sido escrito talvez nos anos 20, anunciando o mundo em que vivemos.

publicado às 18:39




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